Trinta dias. Para o calendário, um suspiro; para quem fica, uma travessia num oceano de ausências. É curioso como a mente tenta nos proteger com o autoengano: acordo e, por um breve milagre de segundos, o mundo ainda conserva a forma de antes. Mas logo o "inacreditável" invade a sala. Teco e Roy partiram. Para a nossa família e para os amigos, resta essa sensação surreal, um curto-circuito na lógica da vida que insiste em não aceitar o silêncio. Perdi meus irmãos e, com eles, perdi as testemunhas oculares da minha aurora. Foram-se os guardiões das nossas piadas cifradas, do balanço exato da batida do pandeiro — aquele ritmo que só quem partilha o mesmo sangue e o mesmo chão sabe decifrar. Partiram pedaços vivos da minha própria história, deixando as ruas da minha amada aldeia um pouco mais vazias.
Olho para o espelho e vejo o peso e a luz dos 73 anos. A pele é um mapa de estradas percorridas em Prudente, mas o olhar... o olhar agora busca algo que ultrapassa as paredes. Sinto saudade da juventude, não por vaidade, mas por aquela leveza de quando o tempo parecia um recurso infinito, uma conta bancária sem fundo. Agora, a lucidez é cortante: o tempo é o único bem real que nos pertence. Todo o resto — posses, títulos, ruídos — é apenas cenário.
Penso no meu amigo Tiago, lá em Barra do Una. Ele foi sábio ao seu modo recluso. Cansou-se da civilização que cobra o que não nos pertence e oferece o que não precisamos. Foi realizar o sonho de ser vizinho do mar, morando sozinho diante da imensidão. Conversamos sempre, e nessas trocas percebo que, embora isolado, ele está mais conectado ao essencial do que muitos que se perdem na multidão. Ele escolheu com precisão como gastar as areias que ainda restam em sua ampulheta.
E eu? Como vou redesenhar o meu caminho daqui para frente?
Esta dor, este luto dobrado, precisa ter um propósito; não pode ser apenas um vácuo. Ela deve ser o lembrete definitivo de que o "depois" é uma armadilha cruel. O amor pela minha família e pelos meus amigos — esse patrimônio que a traça não corrói — é o que me sustenta. Preciso ser melhor, não por uma obrigação moral, mas por uma urgência existencial. Não posso mais me dar ao luxo de estocar abraços ou de adiar palavras que o coração já ditou.
A perda física é um soco; a perda emocional é uma cicatriz que repuxa com a mudança do tempo. Mas há uma beleza trágica em descobrir que a vida não é curta — nós é que demoramos a entender como habitá-la com intensidade. Saber viver é ser mais autêntico, mais profundo e escandalosamente mais afetivo. Viver com a saudade não é carregar um fardo de chumbo; é carregar uma tocha acesa. O Teco e o Roy permanecem em mim: estão no meu modo de rir, na cadência dos sambas que ainda vou cantar e nas lembranças que ecoam pelas esquinas de Prudente.
Vou seguir. Vou honrar cada minuto que me cabe, porque cada segundo ao lado de quem amamos é uma vitória contra a finitude. Lembro-me do gênio solitário Bobby Fischer, o mestre absoluto do xadrez, em seus dias finais em Reykjavik. Ali, no frio da Islândia, com os pés castigados pela insuficiência renal, ele encontrou o xeque-mate da vida no toque do amigo Garðar Sverrison massageando seus pés. Ao sentir aquela massagem, Fischer pronunciou, com uma "terrível doçura", a verdade que as pedras de xadrez nunca lhe ensinaram:
"Nada é tão curativo quanto o toque humano." Sverrison e sua mulher cuidaram do maior gênio do xadrez e deram a ele o afeto, o carinho nos momentos finais de sua vida solitária.
Aqui na minha aldeia, sigo buscando esse toque, essa cura e essa presença. O tempo agora é meu aliado, e minha única escolha é o afeto.

