Laura tem o que muitos consideram o emprego dos sonhos: dirige, no Brasil, uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Mas, à medida que acompanha os impactos da plataforma que ajudou a expandir, começa a questionar a lógica que sustenta seu trabalho. Ela vê a internet se tornar um ambiente de conflito, e as redes sociais, um terreno fértil para a desinformação e a radicalização, dinâmicas que presencia do lado de dentro da engrenagem. Esse impasse profissional transforma-se em uma ruptura mais profunda e, após fracassar na tentativa de convencer a matriz a investir na segurança da rede, aceita um cargo de liderança em Tóquio. É dessa tensão entre o que se constrói e o que se deixa para trás que parte “Nômades num barco de origami” (Quelônio), estreia na literatura da prudentina Fernanda Cerávolo que, durante 20 anos, foi executiva de big techs no Brasil, Estados Unidos, Japão e América Latina.
EXPERIÊNCIA NO JAPÃO
No Japão, Laura encontra uma cultura de respeito e gentileza que contrasta com hierarquias rígidas e o peso de uma sociedade fechada. Sua experiência é marcada pela pandemia de Covid, e o deslocamento geográfico abre espaço para outro: o de uma narradora que, ao se distanciar do Brasil, começa a ver com mais nitidez as estruturas e contradições que antes lhe pareciam naturais. Tal como Laura, “eu me sentia de mãos atadas diante dos haters, trolls e robôs do ambiente digital”, escreve a autora ao recordar o período em que liderava as operações do YouTube no Brasil.
Em “Nômades num barco de origami”, Fernanda Cerávolo narra a experiência japonesa a partir dos pequenos detalhes cotidianos: o metrô lotado de Shibuya, o aprendizado impossível do idioma, a educação rígida, os protocolos contra terremotos, os tufões, a infância no interior paulista marcada pela convivência com famílias descendentes de japoneses e a sensação permanente de inadequação diante do mundo contemporâneo.
IMPACTO PISICOLÓGICO
Para desenvolver o texto, a autora alterna observação política e delicadeza memorialística. Em uma das passagens mais marcantes, descreve o impacto psicológico de viver sob ameaça constante de catástrofes naturais no Japão: “Posso até morrer de fim do mundo, mas não quero morrer de sede, de calor ou de falta de amor”, escreve. Ao revisitar a imigração japonesa no Brasil, o livro também tensiona os mitos históricos da cordialidade nacional e aborda temas como colonialismo, trabalho precarizado e identidade cultural. Em outra frente, recupera episódios da juventude da autora na Alemanha, incluindo uma perseguição noturna por um grupo de skinheads neonazistas no centro de Munique, criando um paralelo inquietante entre extremismos históricos e a ascensão contemporânea da intolerância.
DESENRAIZAMENTO EMOCIONA,
POLÍTICO E TECNOLÓGICO
Sem aderir ao tom confessional fácil, Fernanda Cerávolo constrói um livro sobre desenraizamento emocional, político e tecnológico. Sua narrativa interessa tanto ao leitor de literatura contemporânea quanto ao público que acompanha debates sobre democracia, plataformas digitais, maternidade, mobilidade global e crise climática. Mais do que um livro de viagem ou memória, “Nômades num barco de origami” é uma tentativa de compreender como seguimos existindo num mundo atravessado por colapsos simultâneos: ambientais, afetivos e informacionais.
SOBRE A AUTORA
Fernanda Cerávolo nasceu em Presidente Prudente e mora em São Paulo. Foi executiva em big techs no Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos e no Japão. “Nômades num barco de origami” (Quelônio) é sua estreia na literatura. (Colaborou Ana Paula Tosca)
FICHA TÉCNICA
“Nômades num barco de origami”
Fernanda Cerávolo Quelônio |
Romance | brochura | 14 x 21 cm | 240 páginas R$ 76,00
ISBN 978-85-93229-90-9
O lançamento ocorreu ontem na Livraria da Travessa Shopping Iguatemi SP.
SERVIÇO
Link para compra do livro: https://www.quelonio.com.br/product-page/n%C3%B4mades-num-barco-de-origami-fernanda-cer%C3%A1volo
Fotos: Renato Parada

FERNANDA CERÁVOLO NASCEU EM PRESIDENTE PRUDENTE E ATUALMENTE MORA EM SÃO PAULO

“NÔMADES NUM BARCO DE ORIGAMI” (QUELÔNIO), DA PRUDENTINA FERNANDA CERÁVOLO