Força estranha

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 13/12/2020
Horário 05:00

No dia 10 de dezembro último, Clarice Lispector faria 100 anos e fomos presenteados com diversas homenagens à grande escritora do Brasil, cada vez mais reconhecida internacionalmente. Nos últimos dez anos, Clarice tem sido traduzida para outras línguas e pode-se encontrar suas obras em livrarias na Alemanha, Holanda, Itália. Nos Estados Unidos, ela ganhou espaço no New York Times, foi capa da revista New York Review of Books e também teve espaço no Wall Street Journal. Em Nova Iorque teve até uma “Clarice Week”, com diversos eventos em homenagem à autora.
O que desperta tamanho interesse? A obra de Clarice tem sido apreciada em seu conjunto. Talvez não haja no mundo outra escritora que tenha se dedicado, no decorrer de toda a sua produção, às entranhas do universo feminino e do protagonismo das mulheres diante das mazelas da vida humana. Assim, Clarice tem inspirado muita discussão no meio acadêmico. Teses, muitas teses. Mas também peças teatrais, espetáculos de danças e o mais importante: a atenção dos jovens para a leitura. E o encontro dela com as meninas e os meninos pode ser apreciado no livro “Crônicas para jovens: de escrita e vida”, organizado por Pedro Karp Vasquez. Um deleite. 
Fico imaginando ela escrevendo suas crônicas numa máquina de escrever portátil Olivetti entre as pernas. Cercada de afazeres domésticos, acompanhando a lição de casa dos filhos. A escrita incorporada na vida cotidiana. Mas o texto de Clarice toca em aspectos profundos da vida e transpassa o tempo. Com 40 anos de antecedência, parece até que foi escrito numa mensagem do Twitter. 
Não falo do encantamento de uma linguagem que não foi aprofundada, mas como Clarice mesmo diz: “Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida”. Querer apenas dizer, num simples gesto de delicadeza. Afinal, “nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com a duas mãos”.     
Clarice me atrai para a escrita. Ela me lembra que escrever é um ato que move forças estranhas...
olha 
sorri
entra
gosta
fica
marca
e vai embora antes que acostuma
viver é uma marcha para o adeus
 

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