Futebol: arte ou ciência?

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 12/07/2026
Horário 05:28

Todo mundo sabe que o diferencial do jogador brasileiro nasceu no ambiente informal do futebol de rua, espaço de improvisação e criatividade onde o drible e a “zueira” prevalece sobre a tática rígida.    Este jeito brasileiro de jogar, com o tempo, foi elevado a um símbolo de nação. O conceito de “futebol-arte” foi fundado por Gilberto Freyre em 1938, relacionando o estilo brasileiro à capoeira, ao samba e à miscigenação. Essa visão foi apropriada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas para unificar o país e é reavivada pela mídia em cada Copa do Mundo, reforçando a ideia de um “dom” ou talento natural dos brasileiros. 
Há um consenso crítico de que o futebol brasileiro atravessa uma crise existencial devido à perda de suas raizes lúdicas. A derrota da seleção de Telê Santana, em 1982, é citada como um marco onde o Brasil decidiu que o “futebol-arte” não compensava, aderindo ao pragmatismo europeu. Hoje, muitos campos de várzea desapareceram. No lugar deles surgiram muros, condomínios e estacionamentos. Não desapareceram apenas alguns metros de terra. Desapareceu um modo de crescer. Era ali que o bairro aprendia a se reconhecer, que os apelidos ganhavam fama, que a derrota terminava cinco minutos depois do apito inventado por alguém.
Mas o futebol também mudou muito de uns tempos para cá. Os desenhos táticos ficaram sofisticados. O que antes era intuído passou a ser calculado. Câmeras  acompanham cada passo, computadores medem cada deslocamento, estatísticas antecipam movimentos que ainda nem aconteceram. O desempenho do jogador pode ser atribuído a um planejamento rigoroso da ciência do esporte, seja na preparação, no desenvolvimento de estratégias de treinamento e o esforço de pesquisadores que apuram dados de velocidade e força, combinados com alimentação balanceada. O jogo tornou-se uma ciência e o jogador um ativo financeiro e mercadoria, embalado pelas bets e os mercados de apostas.  É europeização sistêmica do futebol brasileiro, desconectado de sua matriz estética,  encontra o ápice da sua crise em 2026. A derrota recente para a Noruega na Copa do Mundo é a expressão máxima de um país que “jogou mal para vencer” e acabou apenas jogando mal.
Eu continuo imaginando que nenhuma planilha consiga explicar o menino que inventava um drible porque havia desviado de um buraco na rua. Nem o passe inesperado aprendido disputando espaço com o meio-fio, a enxurrada e os cachorros da vizinhança. A criatividade talvez nunca tenha sido um dom misterioso. Era consequência daquele mundo livre onde brincar vinha antes de competir.

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