Gala: uma mulher

Após a leitura sobre o texto de Freud intitulado “Tabu da virgindade (contribuições à psicologia do amor III) (1918[1917])”, pensei em escrever sobre as mulheres e suas vicissitudes. No texto, Freud aborda sobre o percurso da mulher com as suas questões relacionadas à sexualidade. Um texto denso e complexo onde enfatiza que, “poucas particularidades da vida sexual dos povos primitivos são tão estranhas a nossos próprios sentimentos quanto a valorização da virgindade, estado de intocabilidade da mulher”. 
A palavra “sujeição sexual” foi escolhida para descrever o fenômeno de uma pessoa adquirir um grau de dependência, invulgarmente alto, e carente de autoconfiança em relação a outra pessoa com quem mantém um relacionamento sexual. Chegando ao final do texto, bati minha mão, sem querer, no catálogo chamado Desafio Salvador Dalí: uma exposição surreal. 
Folheando devagar e com muita atenção - em tempos de comemorar o Dia Internacional da Mulher -, não pude deixar de observar o amor que nutria Dalí pela sua mulher chamada Gala. Já no início entre 1920-1929, Salvador Dalí declara seu amor: Gala proporcionou-me a estrutura que faltava na minha vida. Eu somente existia numa bolsa cheia de buracos, mole e difusa, sempre à procura de uma muleta. 
Unindo-me a Gala, encontrei a coluna vertebral e, ao amá-la, adquiri corpo. Em todo o catálogo, ele a retrata em suas infinitas formas. O lendário amor apaixonado à primeira vista de Dalí por Gala, não foi tão simples. Gala foi casada com o poeta Paul Éluard. A aparição de Gala insultava a sua mãe e foram episódios tempestuosos que levaram o pai de Dalí a romper qualquer relação com ele. 
Esposa e musa de Salvador Dalí, Gala – cujo nome era Elena Ivanovna Diakonova – foi uma mulher que sempre cultivou uma aura de mistério. Possuidora de uma grande intuição e estilo, ao longo da sua vida relacionou-se com um numeroso grupo de intelectuais e artistas. Nascida na cidade Russa de Kazan em 1894.Gala foi uma mulher adiantada ao seu tempo, perspicaz e segura de si mesma. Possuidora de um magnetismo especial, grande leitora e apaixonada pelas artes, soube reconhecer em Dalí, desde o primeiro instante, o gênio artístico e criador, e dedicou sua vida a potencializá-lo. 
Do mesmo modo para Dalí, ela foi tudo: amante, companheira de vida, musa ativa, gestora, representante e protetora, sempre e em qualquer situação. Dalí pintou Gala em numerosas ocasiões, sendo a modelo dos seus mais célebres retratos. A simbiose entre ambos era tão radical que o artista assinou muitas de suas criações com o binômio Gala – Salvador Dalí. De sua parte, Gala também era um espírito criativo que colaborou estreitamente com Dalí, produzindo objetos surrealistas, fotografando, escrevendo e, acima de tudo, criando o seu próprio mito, parte imprescindível na vida e na obra de Dalí. 
O casal compartilhou tudo ao longo de mais de 50 anos, até a morte de Gala em 1982. Está enterrada no Castelo de Púbol, que Dalí deu-lhe de presente em 1969. “Chamo minha esposa Gala, Galuschka, Gradiva, Oliva, Oliveta (diminutivo catalão de oliva, azeitona), Noisette, avelã aveludada (por causa da finíssima pilosidade que recobre as avelãs da sua face)”. Considero o apelido mais carinhoso, Sino de pelica porque lê para ele em voz alta, durante as longas sessões de sua pintura, produzindo um murmúrio como o de um sino de pelica macia, graças ao qual ele aprende todas as coisas que, sem ela, não chegaria a conhecer nunca. Um abraço carinhoso para todas as mulheres que merecem respeito e uma vida mais justa!

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