Gentil

Carlito Cunha

CRÔNICA - Carlito Cunha

Data 21/04/2026
Horário 06:30

Hoje vou quebrar a rotina e falar de coisa séria, triste, irreparável.
Durante o tempo em que trabalhei em Presidente Prudente, tive um colega de trabalho por quem criei uma grande amizade. Eu, na flor da idade, recém-reservista do Exército, e ele um tantinho mais novo, quatro anos. 
Tínhamos o mesmo espírito brincalhão, a ponto de um dia construirmos um “disco voador” com algumas taquaras amarradas formando um círculo de dois metros de diâmetro, arames cruzando esse círculo pelo lado que seria a parte superior do “disco”, onde colocaríamos 30 ou 40 balões de gás, que seria o combustível de nosso engenho. Fiz uma caixa de papelão como carlinga que teria quatro janelas para que a luz produzida por uma lâmpada de lanterna jorrasse por baixo do “disco” forrado de papel alumínio. 
Compramos todos os balões da carrocinha de um vendedor ambulante, gastamos nosso fôlego enchendo-os, vimos a direção do vento, pois a “nave” deveria passar sobre a cidade e nós, de taxi, que na época era chamado de Biriba, nos encarregaríamos de chegar a tempo no centro e chamarmos a atenção para aquele óvni. O Biriba nos levou para aquela direção. Outro colega de trabalho, Jesuíno, nos ajudava. Não foi fácil levarmos aquele trambolho, os balões, num carro tão pequeno. Motorista e três passageiros!
Enfim chegamos. Eu fiquei encarregado de colocar os balões.
Quando senti que estavam seguros, soltei-os.
Não estavam!
A “nave espacial” ficou no chão e os 40 balões subiram para o céu, sozinhos, para nosso desespero. Gentil, nome próprio, não adjetivo qualificativo, chegou-se para a engenhoca no chão e “encheu o pé” numa direita espetacular.
E fomos embora! Em silêncio. Não havia o que comentar... a não ser matarem-me.
Gentil, era o nome dele. Gentil Zoccante.
Nas voltas que o mundo dá, eu me entreguei àquilo que mais gostava: o desenho, tornando-me um profissional na área. Gentil estudou, formou-se e mudou-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Casei-me em Cuiabá e mudei-me para São Paulo. Gentil também se casou. E, nas voltas que o mundo dá Gentil se casou com a tia da esposa de um amigo que conhecemos criança na Vila Pompéia, em São Paulo, de cujos pais tornamo-nos amigos íntimos.
E, nas voltas que o mundo dá, Gentil nos deixou no dia 2 deste fevereiro de 2026. Tenho absoluta certeza de que está bem, entre espíritos amigos que o receberam com a missão de fazê-lo acostumar-se e aceitar as novas condições da “vida” surgida assim tão inesperadamente. Acostumar-se-á com facilidade, pois não será tão diferente da vida que viveu aqui na Terra.
Fique com Deus, meu amigo.
 

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