Insuficientes, imperfeitos, insatisfeitos

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 17/03/2019
Horário 06:00

Há cerca de quarenta dias escrevi que somos ‘seres perecíveis’ e hoje –quando parecemos sucumbir– insuficientes, imperfeitos e insatisfeitos; ansiosos e estressados, sentindo culpa e medo; fechados sobre nós mesmos, fragilizamos e fragmentamos a existência, a família e os ambientes sociais. Vivemos “pisando em ovos”, num campo minado. Uma palavra pode ter efeito explosivo comparável a uma bomba de elevada potência. Claro que esse ambiente, mais visível no mundo ‘virtual’ sobretudo nas redes sociais, alcançou as relações interpessoais.

A sensação de insegurança e a constatação de intolerâncias nos paralisam. Um amigo dizia-me que nesses dias a dependência de psicotrópicos seria compatível a de outras drogas conhecidas. O lugar da minha fala é o de quem lê, escuta, observa e acolhe variegadas pessoas e sei que com o tempo o recorte me torna algo ‘vesgo’, acabo atraindo aqueles que de algum modo repercutem/reforçam as minhas convicções ou que me buscam por já saberem sobre os meus pensamentos e ações.

Tenho costumes repetitivos. Gosto de rotina –entendida como rito/ritmo de vida– pois me organiza. Gosto de cumprir os compromissos da agenda para viver um pouco de ócio (não de vadiagem). Sinto que mergulhado naquilo que sou e faço, há estranha e incrível liberdade. Entretanto, quando me deixo levar por situações e acontecimentos surpreendentes, aprisiono-me. Viver exige constante vigilância sobre mim mesmo, devo ser a minha própria sentinela. E sei que há inúmeros ‘fiscais’ e ‘investigadores’ me perseguindo com olhares ávidos e juízos prontos.

Na velocidade dos acontecimentos, quem ousa pensar/refletir com mais acuidade, se demora. E não raro é tido como antiquado, incapaz. Uso a metáfora do mergulho. Como é possível mergulhar após apenas assistir às telas? Mergulhar no rasinho das circunstâncias que mudam continuamente? Quem pretende conhecer, experimentando a descoberta, porque antes deu-se o direito da busca, precisa ter calma, sem pressa, descer às profundidades, sem medo. A superficialidade e a dispersão não nos possibilitam verdadeiras descobertas nem encontros. Falseiam a experiência e tapeiam aquilo que imaginamos saber/conhecer.

[Os parágrafos acima foram escritos antes da quarta-feira. Os abaixo, depois...]

Eu gostaria de hoje ser poeta, humorista, pedreiro, padeiro, taxista ou qualquer outra personagem para me ocupar e entreter as pessoas sem precisar parar na dureza dos fatos. Imagino-me azedo (e às vezes ESTOU, pois não o sou) a espalhar azedume em derredor. Não! Essa não é a minha vocação, não estou disposto a essa ‘missão’. Queria espargir o bom e suave odor de Cristo pelo olhar, pela palavra, pela acolhida fraterna, pela alegria de quem não se deixa vencer, pois acredita e segue O vitorioso sobre o mal e a morte.

Eu queria ser outro para não me ver no espelho da vida com a brutalidade desses nossos irmãos que se perdem e não os conseguimos encontrar, aliás, sequer nos damos falta deles. E então tudo passa... foge... acaba. Precisamos de amor de Deus. Precisamos de amor entre nós. Precisamos de amor, mesmo sem nos darmos conta. Somos imperfeitos, insatisfeitos, insuficientes. A carência está nos adoecendo e matando. Precisamos de olho no olho, de coragem para enfrentar o que somos e os outros, distintos de nós. Precisamos de tolerância, de perdão e de paz. Precisamos de políticas públicas que cuidem das reais necessidade das pessoas, especialmente daquelas cujas vidas ficaram nas periferias da existência. Daquelas que matam ou morrem sem nem sequer saber o porquê. Precisamos de vida, com sentido, de preferência.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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