Márcia (in memoriam): A estrela radiante da nossa ópera familiar

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 13/03/2026
Horário 08:05

Na nossa família, o amor nunca foi um sentimento silencioso. Ele sempre precisou de palco, de rima e de uma plateia disposta a se perder entre o riso e a lágrima. O quartel-general desse transbordamento eram os "Pres", aquelas festas pré-nupciais que transformavam a ansiedade dos noivos em pura dramaturgia. Ali, o cenário era montado sob a regência absoluta do meu querido Tio Nerinho (in memoriam), irmão de minha mãe e o grande maestro de todas as nossas emoções.
O Tio Nerinho não apenas celebrava a união de um sobrinho ou sobrinha; ele a imortalizava em versos. Colocava letras falando poeticamente sobre vida do sobrinho ou sobrinha que estavam casando nas músicas que eram clássicos da nossa MPB. Roteirizava os episódios mais hilários da vida dos noivos, criando pequenos atos teatrais que eram o coração do evento. E para dar vida a esse libreto de memórias, ele convocava seus dois maiores talentos: minha prima Márcia (in memoriam) e meu irmão Teco (in memoriam). 
Os dois eram primos irmãos. Desde a adolescência eram muito unidos, juntos com outra prima querida, a Lívia, irmã da Marcia, na qual a chamamos de Audrey Hepburn, famosa atriz inglesa pela sua beleza clássica. Eles eram a nossa dupla imbatível, os operários do riso. Ver a Márcia e o Teco em cena era testemunhar a química perfeita da comédia. Ela, com sua rapidez mental e um humor solar que iluminava até os cantos mais escuros da sala; ele, com o tempo exato da piada e a expressão que arrancava gargalhadas antes mesmo da primeira fala. Representavam a vida dos nossos primos com tamanha entrega que a apatia era proibida. Para o Tio Nerinho, não rir ou não se emocionar diante daquela performance era uma heresia imperdoável.
A Márcia tinha esse dom: ela enfrentava a vida com a sabedoria do sorriso. Estar perto dela era um convite para desarmar o peito e sorrir sem medo. Sua alegria era uma força da natureza, uma herança da nossa ancestralidade criativa que não aceitava nada menos que a intensidade.
Lembro-me dela na Apea, no ápice de sua devoção ao Rei Roberto Carlos. Quando os primeiros acordes de "O Show Já Terminou" começaram a ecoar, Márcia não hesitou. Ela ergueu os dois braços para o céu, num gesto que misturava a fã fervorosa com a alma grata por estar viva e sentindo tudo aquilo. Era uma prece em forma de movimento.
Márcia saiu deste mundo sem cenas, sem o peso do teatro dramático das despedidas longas. Deixou um legado de leveza e o eco de suas risadas entrelaçadas às do Teco.
Hoje, ao ouvir a canção do Rei, imagino o reencontro desse elenco extraordinário. O Tio Nerinho já deve ter escrito a partitura do novo espetáculo, o Teco certamente já preparou o cenário, o Roy (in memoriam) com seu mágico pandeiro e a Márcia... ah, a Márcia já entrou no palco de luz, com os braços erguidos, cantando com o Rei e regendo a nossa saudade com aquele sorriso que o tempo jamais conseguirá apagar.
O show deles não terminou; ele apenas subiu de nível. Prima querida, vamos cantar juntos nesse momento onde a saudade me abraçou,
"O show já terminou vamos voltar à realidade
Não precisamos mais usar aquela maquiagem
Que escondeu de nós
Uma verdade que insistimos em não ver
Não adianta mais
Chorar o amor que já tivemos
Existe em nosso olhar
Alguma coisa que não vemos e nas palavras
Existe sempre alguma coisa sem dizer
E é bem melhor que seja assim
Você sabe tanto quanto eu no nosso caso
Felicidade começa num adeus
Me abrace sem chorar
Sem lenço branco na partida
Eu também vou tentar
Sorrir em nossa despedida não fale agora
Não há mais nada o nosso show já terminou"...

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