Mas quem cria de verdade?

Isabela Vicentin

CRÔNICA - Isabela Vicentin

Data 26/03/2026
Horário 06:45

Eu estou doente.
E não é um tipo de doença que aparece em exame, que dá febre ou que me obriga a ficar de repouso. É mais silenciosa. Vai tomando espaço devagar, como quem pede licença e, quando você percebe, já reorganizou tudo por dentro.
Tenho tentado.
Juro que tenho tentado. Desde que entrei na faculdade, em 2023, venho tentando ser mais produtiva na minha rotina, prestar mais atenção nas aulas, sem aquela vontade de só dar uma olhadinha no celular.
Também tenho tentado estar presente com meus amigos, comer sem precisar de uma tela me distraindo, escrever sem alguém ou algo me dizendo por onde começar, falar o que sinto para as pessoas com quem me relaciono sem pedir ajuda da IA.
Mas eu não consigo.
As minhas respostas saem prontas demais. Automáticas demais. Como se não passassem por mim, apenas me atravessassem. Meus textos perderam o calor. Ficaram corretos, objetivos… e vazios. E isso me assusta, porque eu sempre fui bagunça antes de ser clareza. Sempre fui sentimento antes de ser estrutura, sempre fui humana o suficiente para errar.
Agora eu paro no meio de uma frase e penso: “o que eu respondo?”, “me ajuda a escrever?”, “como posso falar isso?”, “melhore pra mim?”. E, de repente, eu já não sei mais onde estão meus pensamentos e minhas decisões no meio disso tudo…
Quando foi que eu deixei de decidir? Quando foi que acordar virou sinônimo de pegar o celular antes mesmo de abrir direito os olhos? Quando foi que passei a precisar de pelo menos uma hora de vídeos antes de dormir, como se o silêncio fosse insuportável? Quando foi que trabalhar virou dividir a atenção com notificações, como se o mundo real fosse apenas um intervalo entre um scroll e outro?
Eu sinto que perdi alguma coisa. Não sei se foi o controle, a criatividade ou só a coragem de sustentar o vazio até que uma ideia realmente minha apareça. Porque agora tudo vem pronto. Tudo vem rápido. E muito mais fácil.
E, ainda assim, nada parece ser de verdade. O algoritmo escolhe o que eu vejo, o que eu aprendo, o que eu ignoro, sem que eu nem saiba que isso existia. Ele me conhece de um jeito estranho, mais do que eu mesma. E isso deveria facilitar a vida, mas só faz com que ela pareça menos minha.
Quem cria de verdade? Sou eu, quando aceito a primeira resposta que aparece? Ou é essa inteligência invisível que organiza tudo antes mesmo de eu pensar?
Tem dias em que eu travo. Fico olhando para a tela em branco como se tivesse desaprendido a existir sem ajuda. O bloqueio criativo se tornou rotina. Antes mesmo de cogitar “perder tempo” tentando, o chat já fez. Mais do mesmo, mais do igual. E, com a correria do dia a dia, eu vou deixando, vou me acostumando.
E, afinal, será que fui eu quem escreveu este texto? Será que fiz isso sozinha? Sinceramente, já não sei o que há de mim aqui e o que há de inteligência artificial. Talvez seja justamente por isso que eu precise parar e pensar sobre tudo isso com mais cuidado. Entender até que ponto essa facilidade está me ajudando ou me afastando de mim mesma.
Soube que a 14ª Jornada de Comunicação vai discutir sobre inteligência artificial. Talvez seja um bom lugar para começar a fazer as perguntas certas, em vez de apenas aceitar respostas prontas.
Então, se você também sente que, em algum momento, deixou de pensar por conta própria, talvez valha a pena estar lá, nos dias 26 e 27 de março, no auditório Buriti da Unoeste (Universidade do Oeste Paulista).
 

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