Meninos e meninas na sala: uma cena que diz muito sobre o nosso tempo

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 21/03/2026
Horário 05:30

Recentemente fui convidado para participar de uma roda de conversa com cerca de 50 alunos do ensino médio em uma escola do interior. A proposta era simples: conversar sobre educação, sonhos, responsabilidade e o futuro. Mas algo me chamou muito a atenção.
A maioria dos alunos presentes era composta por meninas. E desde o início era possível perceber uma diferença clara de postura. Elas estavam atentas, sérias, interessadas. Escutavam, refletiam, faziam perguntas. Aproveitavam o momento como uma oportunidade de aprender.
Entre parte dos meninos, porém, o comportamento era outro. Risadinhas fora de hora, comentários paralelos, pequenas graças para chamar atenção dos colegas. Um certo ar de desinteresse performático, como se nada daquilo merecesse atenção.
Não se tratava de hostilidade aberta, mas de uma espécie de postura tola — aquela típica tentativa adolescente de parecer indiferente ao que está acontecendo. A cena, aparentemente banal, me fez pensar.
Nos últimos anos, educadores têm observado um fenômeno semelhante em vários países: meninas apresentam, em média, melhor desempenho escolar, maior disciplina em sala e maior comprometimento com os estudos. Em muitas universidades, elas já são maioria.
Parte da explicação pode estar na própria história recente. Durante séculos, as mulheres tiveram acesso limitado à educação, ao trabalho qualificado e à participação plena na vida pública. Quando as oportunidades começaram a se abrir, foi necessário esforço, mobilização e persistência para ocupá-las.
Muitas meninas cresceram ouvindo uma mensagem clara: é preciso estudar, se preparar, conquistar autonomia. Educação tornou-se, para elas, um caminho de liberdade.
Entre muitos meninos, entretanto, o cenário é mais confuso. Durante muito tempo, os direitos e posições sociais masculinas foram considerados quase naturais. Não precisaram ser conquistados da mesma forma. Agora, diante de uma sociedade em transformação — em que as mulheres estudam mais, trabalham mais e ocupam cada vez mais espaços — alguns jovens parecem desorientados.
Sem referências claras sobre o que significa ser homem em um mundo que mudou, parte deles reage com imaturidade, ironia ou desinteresse. Em vez de enfrentar o desafio de crescer junto com as transformações sociais, alguns preferem se refugiar em atitudes superficiais ou em discursos de ressentimento.
É nesse terreno que encontram espaço certos movimentos ridículos que circulam na internet, como os chamados grupos “red pill”, que transformam frustrações pessoais em acusações contra as mulheres. Em vez de estimular responsabilidade e maturidade, oferecem explicações fáceis e culpados convenientes.
Mas a realidade é bem diferente. O avanço das mulheres não é o problema. Pelo contrário: é uma das conquistas mais importantes das sociedades modernas. O verdadeiro desafio está em outra parte: muitos homens ainda precisam descobrir qual é o seu lugar nesse novo cenário. E esse lugar não será encontrado na arrogância nem no ressentimento. Será encontrado na educação, no caráter, na responsabilidade e no respeito.
Uma sociedade equilibrada não precisa de homens ressentidos nem de mulheres submissas. Precisa de mulheres fortes e de homens maduros.
A cena que observei naquela sala de aula talvez seja apenas um pequeno retrato desse momento de transição. De um lado, jovens mulheres que compreendem a importância de estudar, aprender e se preparar para o futuro. De outro, alguns jovens homens ainda tentando esconder inseguranças atrás de brincadeiras e desinteresse, presos à ilusão de que a vida pode ser levada com indiferença e ironia.
Mas há uma lição importante ali: a realidade costuma ser implacável com essas ilusões. O mundo mudou — e continuará mudando.
Quem compreender a importância da educação, da responsabilidade e do respeito estará mais bem preparado para construir seu caminho. Os outros continuarão rindo. Até perceberem, tarde demais, que a vida seguiu em frente sem esperar por eles.
 

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