Meus meses de pandemia

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 29/09/2020
Horário 06:43

Dezembro de 2019 - “Tô nem aí”

Lá, lá, lá, lá, lá, é mais uma doença de frango que apareceu na China. Você viu o meme da cerveja Corona fantasiada de vírus? Meio fraco, mas o seu tio do pavê /pacumê e a tia do crochê se encarregaram de viralizar a imagem. 

Janeiro de 2020 - “Não esquenta”

Férias escolares, praia, represa, futebol e boletos vencendo normalmente. Vez ou outra a gente ouvia algum lance da gripe do morcego. Não, péra! Do rato! Não, péra! Do pangolim! Que isso? Sei lá, mas é coisa deles. Deixa pra lá. Lá, lá, lá, lá

Fevereiro– “Parece sério...”

As aulas recomeçam e no meu caso, mãos à obra para mais um baita semestre, muito planejamento, muitos livros, projetos saindo do papel e pumba! O primeiro caso de corona no Brasil e muitas mortes pelo mundo ocidental todo. Meio que caiu uma ficha. Mas teve carnaval assim mesmo.

Março – “Como assim, ficar em casa?”

O mês em que fui para o isolamento. Com mais de 118 mil infecções em 114 nações e 4.291 mortes no mundo, em 11 de março, a OMS oficializou que vivíamos uma pandemia do Sars-Cov 2. M-a-n-o do céu! Não foi só o susto desta palavra, mas sim o fato de que era necessário implantar o tal do isolamento social. Aulas suspensas, comércios e indústrias fechadas e no dia 17, a pá de cal: a Globo derrubou toda programação da manhã e tarde e passou a transmitir 11 horas de Covid ao vivo. Eu achava que iria pegar Covid pela TV. E os grupos de WhatsApp terminaram a matança diária com muita fake news, muita bobagem e pânico.

Abril – “Como assim, continuar em casa?”

Abril foi o início real de uma vida mediada pela internet. Aulas remotas e a nossa eterna briga para conseguir a atenção dos alunos e ao mesmo tempo ajudar os filhos nas lives intermináveis. Começaram também as reuniões online e o modo de trabalho full time. Não sabia mais o que era casa e o que era trabalho. 7h da manhã: levanta da cama, toma café e vai para o... quarto de novo. Ou para a sala ou qualquer buraco que eu tivesse conseguido transformar em office. Inferno. 

Maio – “UTI”

Vegetei. E só.

Junho e julho– “Ah, meu, “f...-se!”

Eu tenho uma impressão de que nestes dois meses, eu quase que liguei o “f....-se”. Desculpe o palavreado, mas não tem outra forma de descrever isso. O negócio já estava demais para qualquer um e não havia mais condições mentais sadias de tocar a vida. O lance foi relaxar e até saí para cortar cabelo e fazer um mercadinho de leve. Mas o número de mortos passou de 1.300 por dia e isso fez com que eu voltasse para meu cantinho, assustado. Tadinho do bichinho.

Agosto e setembro – “Respirando”

Vida nova! As aulas recomeçaram online e o fantasma do semestre passado parecia que iria reaparecer em casa. Mas desta vez, eu dei uma virada de jogo com uma rotina mais organizada com o dia de trabalho online, inclusive me vestindo como se fosse trabalhar. Isso mesmo. Não há ser humano neste mundo que fique normal vivendo com roupa “de casa” enquanto trabalha ou, no meu caso, dando aula de camisa bonita e bermuda e chinelo. Criei espaços de convivência com a família e um lugar mais fixo para o home office e o estudo das crianças. Ao mesmo tempo, voltei à carga de exercícios e retomei a boa alimentação que sempre segui. Enfim, saí da UTI e estou respirando sem aparelhos de novo!
 

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