Municípios da região negam aplicação de doses vencidas da AstraZeneca

Prefeituras alegam haver inconsistências no sistema do Ministério da Saúde, que aponta que 101 vacinas aplicadas estavam fora da validade na 10ª RA

REGIÃO - ANDRÉ ESTEVES

Data 02/07/2021
Horário 17:14
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Segundo sistema do Ministério da Saúde, vacinas vencidas teriam sido aplicadas em 25 cidades da região
Segundo sistema do Ministério da Saúde, vacinas vencidas teriam sido aplicadas em 25 cidades da região

Municípios da região de Presidente Prudente negam ter aplicado vacinas vencidas da AstraZeneca e culpam falhas no sistema do Ministério da Saúde. As contestações ocorrem após o jornal Folha de S.Paulo divulgar dados de registros oficiais da pasta que apontam que pelo menos 101 doses fora da validade foram aplicadas em postos de saúde de 25 cidades da 10ª RA (Região Administrativa) do Estado de São Paulo.

Segundo a publicação da Folha, o município que liderou a suposta utilização de imunizantes expirados foi Rancharia, onde 25 doses teriam chegado ao público. Na sequência, destacam-se Presidente Prudente, com 13 doses fora da validade, e Presidente Venceslau, com 11 (veja o levantamento para toda a região na tabela abaixo).

Para a publicação, a reportagem da Folha cruzou duas bases – DataSUS e Sage (Sala de Gestão Estratégica do Ministério da Saúde) – a partir do número do lote das vacinas. Segundo o jornal, foram levadas em consideração todas as imunizações do país contra Covid-19 até 19 de junho.

Ainda conforme o veículo, as vacinas vencidas integram oito lotes da AstraZeneca importados ou adquiridos por consórcio. Um deles passou da validade no dia 29 de março. Já o que venceu há menos tempo estava válido até 4 de junho. São eles:

4120Z001 (vencimento em 29 de março)
4120Z004 (vencimento em 13 de abril)
4120Z005 (vencimento em 14 de abril)
CTMAV501 (vencimento em 30 de abril)
CTMAV505 (vencimento em 31 de maio)
CTMAV506 (vencimento em 31 de maio)
CTMAV520 (vencimento em 31 de maio)
4120Z025 (vencimento em 4 de junho)

Não procede

Em Presidente Prudente, a VEM (Vigilância Epidemiológica Municipal) denota que as ocorrências envolvendo o município dizem respeito a falhas no lançamento dos lotes das vacinas no portal Vacivida e, em dois casos específicos, o problema está relacionado à data de registro da aplicação. "Em resumo, não houve aplicação de vacinas vencidas em Prudente e os problemas detectados no lançamento dos dados já foram corrigidos", elucida.

A prefeita de Presidente Venceslau, Bárbara Vilches (PV), garante que ninguém tomou vacina fora da validade no município e que as informações foram lançadas de forma errada no sistema do Ministério da Saúde.

Em Martinópolis, onde supostamente cinco doses vencidas foram utilizadas, a Prefeitura diz desconhecer a informação e destaca que não foi notificada pelos órgãos oficiais de saúde do país, responsáveis pela campanha nacional de imunização. “A aplicação de doses no município segue rigorosamente todas as condutas necessárias, conforme orientação do Plano Nacional de Imunização”, enfatiza. “Importante considerar ainda que diversas cidades e secretarias de Estados alegam problemas na migração e integração de informações entre municípios e o sistema federal, o que sugere erros de leitura ou exportação de dados”, completa.

O Comitê de Contingenciamento do Coronavírus de Mirante do Paranapanema, cidade onde duas doses fora da validade teriam sido aplicadas, também ressalta que a situação não procede e que a cidade mantém cadastro atualizado de todas as vacinas disponibilizadas ao público. “Foi realizada uma revisão dos dados, inclusive do sistema Vacivida, que não apontou nenhuma irregularidade”, argumenta. O comitê reforça que o calendário de vacinação está adiantado e que a equipe está sempre atenta à validade dos imunizantes. “A Vigilância Epidemiológica Municipal já está tomando as providências para solicitar a correção dos dados junto ao Ministério da Saúde”, complementa.

Em Álvares Machado, onde duas doses expiradas foram supostamente usadas, a Prefeitura acredita que há inconsistências no referido sistema.

Ao tomar conhecimento do assunto, Claudia de Melo Xavier, responsável pela campanha de vacinação contra a Covid-19 em Presidente Epitácio, onde teriam sido aplicadas duas doses vencidas do imunizante, usou as redes sociais para negar o caso. "Um dos lotes informados é o de número 4120Z001 e estaria vencido se estivesse sendo usado agora em julho. No entanto, foi utilizado no mês de março e dentro da validade. O outro lote de número
CTMAV501 nem recebemos", explica.

Em Osvaldo Cruz, onde duas doses teriam sido aplicadas após o vencimento, a Prefeitura relata que recebeu um lote no dia 27 de janeiro, com validade para 13 de abril, utilizado para primeira dose, e outro em 26 de fevereiro, com validade para 29 de março, também destinado para primeira dose. Ambos tiveram a data de vencimento respeitada. "A Secretaria de Saúde informa que os imunobiológicos da sala de vacinas são controlados e inspecionados periodicamente, o que garante que a população não receba vacinas com vencimentos expirados", explana.

Houve precedente

O município de Dracena, por outro lado, menciona que as doses vencidas se referem ao ocorrido no mês de abril, quando foram aplicadas 80 doses do lote 4120Z001 da vacina da AstraZeneca entre os dias 14 e 15. “Portanto, o caso foi amplamente divulgado pela administração municipal, por meio do prefeito André Lemos [Patriota], sendo praticamente uma das primeiras cidades do Brasil a se manifestar publicamente sobre tal acontecimento. Logo que tomou conhecimento sobre o fato, o prefeito usou as redes sociais da Prefeitura, assim como as que pertencem a ele, para informar a população”, reitera.

O Executivo acrescenta que, posteriormente ao fato, todas as 80 pessoas foram novamente vacinadas e, atualmente, já estão com o esquema vacinal quanto à Covid-19 concluído. “Ressaltamos ainda que nenhuma delas apresentou problema grave de saúde”, considera.

Distribuição dentro da validade

Procurada, a Secretaria de Estado da Saúde informou que todos os lotes foram distribuídos às cidades dentro do prazo de validade. "A pasta orienta os municípios sobre a aplicação da vacinação contra a Covid-19 e a importância da verificação da data de validade antes do uso do frasco de uma vacina, inclusive com documentos técnicos com todas as condutas necessárias", afirma.

A secretaria destaca que, por meio da plataforma Vacivida, sistema online que permite o monitoramento dos vacinados, identificou 4.772 registros em 315 municípios que sugerem aplicações dos imunizantes da AstraZeneca após o vencimento. A pasta está informando as prefeituras, que são as responsáveis pela aplicação das vacinas, para realizar busca ativa desta população. "Cada Prefeitura pode consultar os dados da sua cidade no Vacivida e identificar o munícipe que eventualmente tenha recebido uma vacina vencida. Caso seja uma situação de erro de digitação do lote ou de data de aplicação, os municípios também podem realizar a correção na plataforma", esclarece.

A pasta pontua que, se constatada a aplicação de uma vacina fora da validade, o caso deve ser avaliado individualmente para definição da conduta apropriada definida pelo Programa Nacional de Imunizações. "Quem tiver dúvida com relação à validade do imunizante da AstraZeneca que recebeu deve procurar a unidade de saúde em que foi vacinado. Além disso, se o cidadão identificar uma data ou lote divergente da carteirinha em papel em relação ao digital deve procurar o serviço municipal para emissão de um novo documento impresso", adverte.

À Agência Brasil, o Ministério da Saúde informou que nenhuma dose vencida de vacina contra a Covid-19 é repassada aos estados e Distrito Federal. Acrescentou que o prazo de validade dos imunizantes é rigorosamente acompanhado desde o recebimento até a distribuição. Segundo a pasta, os Estados são orientados a distribuírem imediatamente os imunizantes recebidos, sendo obrigação dos gestores locais do SUS (Sistema Único de Saúde) fazer o armazenamento correto e a aplicação das doses dentro do prazo de validade.

Quantitativos importados

Em nota à reportagem, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) esclareceu que os referidos lotes não foram produzidos pela instituição. Parte deles (com numeração inicial 4120Z) é referente aos quantitativos importados prontos do Instituto Serum, da Índia, chamada de Covishield, e entregues pela Fiocruz ao Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde em janeiro e fevereiro deste ano. Os demais lotes apontados foram fornecidos pela Opas/OMS (Organização Pan-Americana de Saúde).

"Todas as doses das vacinas importadas da Índia [Covishield] foram entregues pela Fiocruz em janeiro e fevereiro dentro do prazo de validade e em concordância com o Ministério da Saúde, de modo a viabilizar a antecipação da implementação do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, diante da situação de pandemia. A Fiocruz está apoiando o PNI na busca de informações junto ao fabricante, na Índia, para subsidiar as orientações a serem dadas pelo programa àqueles que tiverem tomado a vacina vencida", esclarece.

Tomar vacina vencida faz mal?

O infectologista de Prudente, André Luiz Pirajá, aponta que tomar vacina expirada não faz mal para o corpo, principalmente a da AstraZeneca, que utiliza a tecnologia chamada de mRNA ou RNA-mensageiro e, por isso, possui o vírus atenuado que carrega o material genético da Covid-19, a fim de induzir o sistema imunológico. No entanto, o vencimento diminui a imunopatogenicidade da vacina, que é a capacidade de provocar uma resposta imune no indivíduo que a tomou. “O ideal, portanto, é que pessoas nesse tipo de situação recebam novas doses”, afirma.

Doses vencidas aplicadas segundo sistema do Ministério da Saúde

Município Quantidade
Adamantina 0
Alfredo Marcondes 2
Álvares Machado 2
Anhumas 0
Caiabu 0
Caiuá 2
Dracena 4
Emilianópolis 0
Estrela do Norte 0
Euclides da Cunha Paulista 1
Flora Rica 0
Flórida Paulista 0
Iepê 0
Indiana 0
Inúbia Paulista 0
Irapuru 1
Junqueirópolis 2
Lucélia 2
Marabá Paulista 0
Mariápolis 0
Martinópolis 5
Mirante do Paranapanema 2
Monte Castelo 0
Nantes 0
Narandiba 0
Nova Guataporanga 0
Osvaldo Cruz 2
Ouro Verde 0
Pacaembu 5
Panorama 1
Paulicéia 0
Piquerobi 0
Pirapozinho 5
Pracinha 0
Presidente Bernardes 4
Presidente Epitácio 2
Presidente Prudente 13
Presidente Venceslau 11
Rancharia 25
Regente Feijó 1
Ribeirão dos Índios 0
Rosana 3
Sagres 0
Salmourão 0
Sandovalina 2
Santa Mercedes 0
Santo Anastácio 0
Santo Expedito 2
São João do Pau d’Alho 1
Taciba 0
Tarabai 0
Teodoro Sampaio 0
Tupi Paulista 1
Total 101

Fonte: DataSUS e Sage*

*Os dados foram divulgados pela Folha de S.Paulo

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