Músicos de rua... A dança que mudou vidas

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 16/01/2026
Horário 07:08

Em pleno coração de São Paulo, o crepúsculo de uma sexta-feira pintava o céu, e o ar, para a surpresa de todos na cidade da garoa, estava límpido e convidativo. Janaina, com a ajuda de seu amigo Dimas e sua fiel van, montava sua bateria na calçada. As ruas fervilhavam com a energia de quem escapa de uma semana maçante para abraçar a liberdade do fim de tarde. Para muitos, a sexta-feira é a melhor parte do fim de semana.
Os pais de Janaina não viam um futuro para ela na percussão, mas o dono da loja onde ela trabalhava entendia seu sonho, liberando-a mais cedo para viver sua paixão. Para Janaina, o ritmo era seu melhor amigo, e a realidade, sua pior inimiga. Ela começou a se aquecer, batucando um ritmo lento e compassado, sem se importar com os poucos trocados no chapéu mágico. Um skatista passou, jogou uma moeda, e ela agradeceu com um sorriso.
Janice caminhava, imersa em pensamentos. Havia acabado de levar um "pé na bunda" digital, uma mensagem curta e fria no WhatsApp. "FDP!", ela praguejou mentalmente. Foi inesperado, mas ela nem gostava dele de verdade. Mesmo assim, a situação era uma completa merda. Seu plano de chorar, beber vinho e dançar sozinha foi por água abaixo.
Carlos, um contador de banco com a vida regrada pelos números, pegou seu café na Starbucks. Sua existência era um cálculo frio. Ele sonhava com outras línguas, outros cheiros, mas era fiel demais à sua esposa para sequer considerar uma aventura.
Janaina tocava há 16 minutos quando seus olhos encontraram Carlos. Maleta, terno alinhado, a imagem perfeita de um executivo. Algo nele a inspirou. Ela mudou o ritmo, começando com um reggae e depois um ritmo mais sensual, cheio de groove. Uma faísca acendeu em Carlos. A batida o chamou.
O inesperado aconteceu. Carlos parou, largou a maleta e começou a se mover, seguindo o ritmo de Janaina. As pessoas ao redor começaram a se aglomerar. A conexão entre o ritmo dela e a dança dele era mágica. Janice, que estava no meio da multidão, sentiu o corpo responder à melodia. Ela começou a dançar também, de forma sensual. Carlos, em um impulso, a convidou para dançar. Juntos, levaram a multidão ao delírio.
Quando a música parou, o chapéu mágico estava transbordando de dinheiro. Carlos não soube explicar o que o fez parar e dançar. Janaina, Carlos e Janice se abraçaram, em um momento de pura alegria. "Artistas de rua para sempre", disseram uns aos outros.
Então, cada um seguiu seu caminho. Carlos e Janice caminharam juntos, enquanto o sol se punha. Ele disse a ela que havia um raio de sol em seu caminho, e que ela ficaria bem. Trocaram um último olhar de ternura antes de se despedirem.
Carlos voltou ao lugar onde tudo aconteceu. Parou, revivendo aquela dança que o fez sentir vivo. Mas não encontrou respostas. Sua vida mudaria drasticamente sem que ele soubesse. Em pouco tempo, perderia a capacidade de andar, de dançar com uma desconhecida. De mastigar. Com o tempo, o nome de sua esposa se esvaneceria. Ele não distinguiria mais entre estar acordado ou dormindo. Entraria num território onde a solidão é a maior predadora. Questionaria Deus o porquê da criação do mundo.
Raras vezes, as imagens daquela dança com a desconhecida ao som de uma bateria voltariam à sua mente. E, na solidão de sua condição, ele finalmente sentiria o porquê de Deus ter criado o mundo. Antes de deixar esse mundo o poema, Carpe Diem do poeta Walt Whitman, vem a sua memória como um último suspiro de vida:
"Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão"...
 

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