A retomada dos trabalhos do Conselho Municipal de Política Cultural de Presidente Prudente, órgão colegiado responsável pelo debate, acompanhamento e deliberação das políticas públicas culturais do município. O momento atual expõe, de forma bastante evidenciada, os desafios de uma cidade que, após anos de crescimento das demandas culturais, chega a um ponto em que a política pública já não consegue mais sobreviver apenas de improvisos, esforços individuais e soluções emergenciais.
As recentes discussões envolvendo o processo eleitoral do conselho, os apontamentos realizados pelo Ministério Público e os próprios debates ocorridos na primeira reunião ordinária do novo biênio revelam um cenário complexo, mas também profundamente importante para o amadurecimento institucional da cultura no município.
Durante muito tempo, a cultura em cidades médias brasileiras foi sustentada por poucos agentes, quase sempre sobrecarregados, tentando dar conta simultaneamente de eventos, editais, prestação de contas, atendimento à população, manutenção de equipamentos culturais, articulação institucional e execução de políticas públicas cada vez mais complexas. Ao mesmo tempo, artistas, produtores culturais e movimentos sociais passaram a exigir, de maneira legítima, mais participação, mais transparência, descentralização e acesso aos recursos públicos.
Esse crescimento das demandas, no entanto, nem sempre foi acompanhado pela ampliação da estrutura administrativa necessária para responder a elas. O resultado é um cenário de tensão permanente.
Não se trata aqui de personalizar conflitos ou transformar divergências em disputas individuais. Pelo contrário. O momento exige justamente maturidade para compreender que muitos dos problemas atuais não surgem apenas de decisões isoladas, mas de fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas.
O próprio despacho recente do Ministério Público sobre o processo eleitoral do conselho aponta exatamente para essa necessidade de aprimoramento institucional. Ao mesmo tempo em que reconhece a legitimidade estrutural do processo e a importância da continuidade das políticas culturais, também identifica improvisações administrativas, ausência de previsões normativas adequadas e necessidade de maior transparência e regularização institucional.
Isso não deve ser interpretado como destruição da política cultural local. A cultura deixou de ser apenas calendário de eventos. Hoje ela envolve legislação específica, mecanismos de financiamento, fundos públicos, editais, acessibilidade, patrimônio cultural, participação social, territorialização, prestação de contas, controle público e construção coletiva de diretrizes.
A primeira reunião do novo conselho mostrou isso de maneira simbólica. Estavam presentes representantes da literatura, capoeira, cultura popular, teatro, música, patrimônio, juventude, universidade, artesanato, cultura evangélica, pontos de cultura e poder público. Visões diferentes, experiências diferentes e até compreensões distintas sobre o próprio papel do conselho. E isso é natural.
A democracia cultural não se constrói pela ausência de divergências, mas pela capacidade de criar canais institucionais para que essas divergências produzam encaminhamentos concretos.
Talvez o maior desafio agora seja exatamente esse: transformar tensão em construção institucional. Isso passa pela elaboração de um Regimento Interno sólido, pela construção efetiva do Plano Municipal de Cultura, pela execução responsável da Pnab (Política Nacional Aldir Blanc), pela ampliação da transparência, pela melhoria dos canais de comunicação e, principalmente, pela criação de condições reais para que a política cultural não dependa apenas do esforço individual de poucos agentes.
Presidente Prudente possui história, produção artística, equipamentos públicos, grupos consolidados e agentes culturais comprometidos. Existe potência. Existe acúmulo. Existe capacidade.