Dizem os matemáticos e os místicos que 2026 é o ano do "um", o ponto de partida. Mas ninguém me avisou que, para recomeçar, o destino decidiria fazer uma limpeza tão profunda e dolorosa no meu inventário afetivo. O ano nem bem dobrou a esquina e já carregou o Teco e o Roy. Perder irmãos é perder partes da nossa própria biografia; é como se as páginas do início do meu livro tivessem sido arrancadas à força, deixando o enredo atual sem rima e sem prumo.
E como se o silêncio dos meus irmãos não fosse barulho o suficiente, veio o adeus à Amora. Engraçado pensar na origem dela. A minha filha Luiza, e o meu genro de ouro. Milan, não sei como a encontraram naquela estrada escura, uma pequena vida insistente sobre o corpo inerte da mãe. O destino foi generoso. Salvaram a pequena, batizaram-na com nome de fruta delicada: Amora. Mal sabiam eles que, por trás da doçura do nome, habitava a energia de um dinossauro em miniatura.
Amora não passava pela vida; ela atropelava. Rasgou sofás, devorou almofadas e testou os limites da minha paciência e do meu casamento com a Mulher Maravilha. O ápice da sua "delicadeza" foi o fatídico Derby. Eu, imerso na liturgia corinthiana, preparado para o sofrimento sagrado contra o Palmeiras, me vi num desespero profano. O controle remoto sumira. O divórcio rondou a sala, a ansiedade subiu o tom, até que a vi: lá estava ela, com o controle estilhaçado entre os dentes, me olhando como quem diz que o rádio ainda é a melhor forma de torcer.
Assisti ao jogo no calor da garagem, suando e xingando, ouvindo as ondas do rádio como se tivesse voltado décadas no tempo. Naquele dia, eu queria o controle; hoje, eu daria todos os controles do mundo para ouvir o barulho dela destruindo mais um objeto caro.
Caminhamos muito pelo Calçadão e pelo Parque do Povo. Ela adorava o vento no rosto e a liberdade do gramado. Hoje, o parque continua lá, o Corinthians continua jogando, mas o mundo ficou mais mudo. Os latidos que me irritavam na hora do descanso agora são ecos de uma alegria que eu não sabia que preenchia tanto os vãos da casa.
2026 está sendo severo, sim. Mas, entre as perdas de Teco, Roy e da minha "dinossaura" de estimação, fica a lição de que o amor, mesmo quando mastiga o controle remoto da nossa vida, é a única coisa que faz o jogo valer a pena. Seus latidos de alegria agora se transformaram em saudades.
"A saudade, ela queima como o sol
A saudade ela é grande como o mar
A saudade, ela é forte como o vento
Ela abre um caminho pra voltar"... Valeu minha eterna companheira!