O berçário pré-histórico do Oeste Paulista: tesouro de 83 ovos de crocodilos primitivos ganha o mundo

SINOMAR CALMONA

Descoberta em Presidente Prudente é o maior registro de ninhadas de crocodilomorfos já encontrado no planeta; fósseis de 86 milhões de anos revelam comportamento social de répteis extintos

COLUNA - Sinomar

Data 22/02/2026
Horário 04:02
O CAÇADOR DE FÓSSEIS EM AÇÃO:  O paleontólogo William Nava, durante um dos momentos críticos do salvamento das ninhadas na região de Presidente Prudente. Nava é o responsável por identificar e coordenar a extração de mais de 80 ovos fossilizados, um trabalho que exige anos de dedicação em campo sob o sol do interior paulista. Graças a esse esforço, o Brasil hoje detém o recorde mundial de ninhadas de crocodilomorfos do Cretáceo.
O CAÇADOR DE FÓSSEIS EM AÇÃO:  O paleontólogo William Nava, durante um dos momentos críticos do salvamento das ninhadas na região de Presidente Prudente. Nava é o responsável por identificar e coordenar a extração de mais de 80 ovos fossilizados, um trabalho que exige anos de dedicação em campo sob o sol do interior paulista. Graças a esse esforço, o Brasil hoje detém o recorde mundial de ninhadas de crocodilomorfos do Cretáceo.

Enquanto muitos veem apenas rochas e poeira nas escavações do interior paulista, o paleontólogo William Nava enxerga histórias de milhões de anos. Sua dedicação incansável ao campo resultou em uma descoberta que está rodando o mundo científico: o maior conjunto de ovos de crocodilomorfos já registrado. O achado, realizado em solo prudentino, é o tema central de um artigo publicado este mês pelo renomado Journal of Vertebrate Paleontology (JVP), confirmando a importância global do trabalho de Nava.

A PERSPICÁCIA POR TRÁS DA DESCOBERTA
A história deste achado épico começou com a intuição e o olhar treinado de William Nava. Em setembro de 2020, durante uma vistoria técnica em uma área onde a prefeitura de Presidente Prudente instalava cercas de proteção, Nava detectou vestígios que passariam despercebidos por olhos leigos. Eram os primeiros sinais de um "berçário" pré-histórico que guardava 83 ovos de ancestrais de crocodilos, com idade estimada entre 83 e 86 milhões de anos.
Nava não apenas identificou o material, mas coordenou uma operação logística complexa entre 2020 e 2022 para retirar blocos maciços de rocha da Formação Adamantina. Um dos blocos, o mais impressionante, continha 47 ovos — uma marca histórica para a paleontologia brasileira e mundial.

WILLIAM NAVA E A CONEXÃO COM A CIÊNCIA INTERNACIONAL
O trabalho de campo liderado por Nava serviu de base para a dissertação de mestrado de Giovanna Paixão e envolveu pesquisadores da Unipampa e especialistas estrangeiros. A análise das amostras coletadas pelo paleontólogo revelou detalhes fascinantes: os ovos pertenciam ao grupo dos notossúquios, répteis terrestres que dominavam a região no período Cretáceo.
A precisão de Nava em preservar o contexto das ninhadas permitiu que a ciência entendesse que mais de uma fêmea pode ter utilizado o mesmo local para postura. Isso sugere um comportamento social desses animais, algo que só pôde ser teorizado graças ao cuidado do paleontólogo na extração dos fósseis no sítio José Martin Suárez.

UM LEGADO PARA A POSTERIDADE
Todo o material resgatado pelas mãos de William Nava e sua equipe está agora sob sua guarda no Museu de Paleontologia de Marília. Para Nava, cada ovo fossilizado é uma peça de um quebra-cabeça que ajuda a entender como a vida evoluiu no Oeste Paulista.
O diretor do museu continua sendo o principal guardião desse tesouro, garantindo que o público em geral tenha acesso ao que há de mais avançado na ciência. Mais do que colecionar fósseis, Nava coleciona evidências de que o interior de São Paulo foi, um dia, o cenário de uma fauna vibrante e monumental. A publicação internacional deste mês é, acima de tudo, o reconhecimento de um trabalho de uma vida inteira dedicada ao chão brasileiro.

DESTAQUES DA EXPEDIÇÃO DE NAVA
•    Período de Coleta: 2020 a 2022 (concluído em 2023).
•    O Protagonista: William Nava, pioneiro em vistorias no Oeste Paulista.
•    O Recorde: 83 ovos fossilizados, o maior conjunto já descrito do gênero.
•    Patrimônio Local: Ovos de 6 cm que revelam o clima e a vida de 86 milhões de anos atrás.


UM BERÇÁRIO DE 86 MILHÕES DE ANOS
Este bloco de rocha, resgatado pelo paleontólogo William Nava na região de Presidente Prudente, guarda um recorde mundial: são 47 ovos de crocodilomorfos preservados em um único conjunto. A análise da disposição dos ovos sugere um detalhe fascinante sobre a vida no Cretáceo: o esforço energético para uma única mãe seria imenso, indicando que duas fêmeas podem ter compartilhado este "ninho coletivo". Um verdadeiro flagrante de comportamento social na pré-história.


O ELO PERDIDO NO OESTE PAULISTA
No alto a força e a sobrevivência: um crocodilo moderno, cujo design biológico pouco mudou em milhões de anos. Embaixo uma ninhada de 86 milhões de anos encontrada por William Nava. Estes ovos foram depositados no Período Cretáceo, o capítulo final da Era dos Dinossauros. Enquanto os gigantes tiranossauros dominavam a terra, esses pequenos ancestrais lutavam pela vida no interior paulista, deixando para trás um registro que sobreviveu à extinção em massa e agora revela seus segredos em Presidente Prudente.


TESTEMUNHAS DA ERA DOS DINOSSAUROS
Você sabia que estes ovos foram colocados no ninho quando os dinossauros ainda caminhavam pelo Brasil? Datados do fim do Cretáceo, os fósseis descobertos pelo paleontólogo William Nava pertencem aos crocodilomorfos, os ancestrais que deram origem aos crocodilos e jacarés que conhecemos hoje (foto à esquerda). Encontrados em blocos de rocha no sítio arqueológico José Martin Suárez, eles são a prova viva — e fossilizada — de que nossa região foi um dos últimos grandes refúgios da fauna pré-histórica antes do fim de uma era.


RESGATE HISTÓRICO
Na imagem, o paleontólogo realiza a limpeza técnica de uma ninhada fossilizada antes da remoção do bloco de rocha. Este material, datado de 86 milhões de anos atrás, é a base do estudo publicado internacionalmente este mês pelo Journal of Vertebrate Paleontology.


 

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