Escutando o belíssimo bolero, “Lo Siento”, da cantora espanhola, Valerie Loh, lembro dos meus irmãos Teco e Roy. A consciência da finitude da vida é o maior convite para se viver bem, mas parece que o relógio na parede insiste em fazer barulho, porém o som parece vir de outro cômodo, de outro mundo.
Há alguns meses, o destino operou com uma pressa severa, injustificável e violenta. Levou o Teco. E, num piscar de olhos, levou o Roy. Dois nós firmes de uma mesma corda, desatados antes da hora. Desde então, a vida mudou o disco sem avisar, tirando de cena a alegria espontânea para colocar para tocar uma melodia lenta, de tons menores. Olho para o vazio dos dias e me pergunto: o tempo vai passando ou somos nós que estamos passando pelo tempo?
Talvez o tempo seja um rio parado, e nós sejamos os barcos que navegam por ele, tateando as margens em busca de uma luz que explique o inexplicável. Hoje, meus pés desenham no salão da memória os passos solitários de um bolero triste. Um passo para o lado onde o riso do Teco costumava ecoar; um passo para trás, buscando a segurança do pandeiro do Roy, que sempre sabia ditar o compasso exato do nosso caminhar.
É uma dança difícil, essa que se faz com os olhos marejados. O Teco era o riso em pessoa, a quebra do protocolo, o humor que transformava o comum em extraordinário. O Roy era a pulsação, o ritmo do pandeiro na palma da mão que fazia a vida ter molejo, ginga e rumo. Um trazia a leveza do espírito; o outro, a precisão do coração. Como o destino achou que conseguiria apagar dois homens que eram puro movimento?
A ausência deles não é um vazio silencioso; é uma presença barulhenta. A saudade nada mais é do que o amor que não tem mais para onde ir, transbordando pelos olhos e apertando o peito. Mas há algo que a morte, por mais severa que tenha sido, é completamente impotente para tocar: o laço. Ela tem força para interromper os abraços físicos, mas não o que foi construído na alma.
Caminho com uma bagagem mais pesada, é verdade, mas também com uma certeza blindada contra qualquer partida. Enquanto eu grudar na memória o sorriso do Teco e trouxer no peito a batida do pandeiro do Roy, a música deles continuará ecoando.
No meio do salão vazio, percebo que a melodia não parou. Fomos, somos e seremos sempre irmãos. Para sempre. E o "para sempre" não cabe no relógio do mundo; ele mora na eternidade do amor que nos uniu. Como cantou o poeta da minha geração Belchior: "Viver é melhor que sonhar"...
