O botão de partida

Carlito Cunha

CRÔNICA - Carlito Cunha

Data 16/06/2026
Horário 06:00

Este caso se dá na década de 30, quando a novidade na indústria automobilística era o botão de partida.
Um fazendeiro abastado limpou as botas no capacho e entrou numa agência, interessado em ver um carro.
O fordinho era o único que estava lá, negro e reluzente, no meio do salão, parecendo coisa viva, garboso, como se soubesse porque estava exposto. Parecia saber ser algo importante, valioso, cobiçado por muita gente. O fazendeiro aproximou-se interessado, olhos brilhando. Olhou, olhou e já foi abordado por um vendedor sorridente.
- Belo, hein, coronel? - e, esperto, chamou-o de coronel e salientou a novidade: Já notou o botão de partida? É um automóvel último tipo que já veio com o botão de partida, dispensando a manivela e outras coisas obsoletas.
- E esse tar de botão de partida num faia? - perguntou o fazendeiro.
-Absolutamente, coronel - respondeu o vendedor - é uma revolução no mundo automobilístico – e, para provar o que dizia, deu a partida para o fazendeiro ver.
O motor roncou e o fordinho tremeu todinho de prazer, ronronando.
O fazendeiro sorriu largo, mostrando o dente de ouro e, depois, andou ao redor do carro, olhando tudo, os pneus, o estofamento, a capota, os faróis. De fato, era um belo carro. Condizia com a marca já famosa.
E o vendedor não se cansava de falar da novidade. Era um ponto chave, um ponto de venda importante.
- Agora, coronel, é só girar a chave pra ligar e dar a partida, no botão. Nada mais. Adeus manivela! – salientou.
E ligava, novamente, para o “coronel” sentir a facilidade.
O fordinho ronronava e tremia de prazer.
Mas o fazendeiro ainda não entregara o ponto, continuava olhando, olhando tudo, embora entusiasmado, até que reparou que no para-choque dianteiro havia o buraco da manivela entre duas barras de metal. Não deu bandeira. Foi até a caixa de ferramentas, colocada no estribo do carro, abriu-a disfarçadamente e viu ali, a manivela!
- Mas num faia mesmo? - tornou a perguntar
- Capaz! Não falha nunca! - respondeu o vendedor.
E ia dar a partida novamente, quando o fazendeiro interrompeu:
- Então me diz uma coisa: si num faia nunca, por que tem o buraco lá no para-choque e tem a manivela, aqui na caixa de ferramenta?
O vendedor “balançou”, mas não deu na vista. Tinha nascido para a profissão, pensou rápido e olhou para o fazendeiro perguntando:
- Ora, coronel, o senhor já ouviu falar de que um homem, com perdão da má palavra, já tenha dado a luz à uma criança?
O fazendeiro riu.
- Bem... é... não! - respondeu.
O vendedor abriu a camisa, no peito, e mostrou os seus mamilos dizendo triunfante:
- No entanto, nós, homens, temos os mamilos, como as mulheres, porque se um dia acontecer...
 

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