O campeão da rinha e o silêncio que ficou na cozinha

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 14/07/2026
Horário 05:30

Meu avô era treinador de galo de briga. Tudo bem. Naquela época isso não era pecado. 
Para os mais novos: a briga de galos hoje é uma prática proibida, por motivos óbvios, mas lá atrás era comum nas pequenas cidades. Os bichinhos lutavam em um lugar chamado rinha até que um morresse ou ficasse praticamente inválido e o lance era apostar e beber. Lugar calmíssimo. 
Meu avô era assíduo nas rinhas e era muito bom no que fazia: treinar os campeões. Tanto que na casa dele havia gaiolas por todo quintal, onde os galos ficavam para serem treinados. Todo dia chegava um dono de galo e deixava a ave ali para que ficasse pronta para os combates.
Quem não curtia muito esta história era minha avó, que tinha que conviver com os penosos no fundo de casa, dar comida e água e ainda encarar o fato do meu avô meio que desaparecer principalmente aos domingos de casa por horas e horas. Ela sempre reclamava com ele, mas não era ouvida. Coisa de casal, tipo quando um homem gosta muito de futebol ou de ficar no boteco. Ela ia levando, mas no fundo o sangue português estava prestes a ferver.
Um dia, ele chegou em casa com um galo muito bom e promissor. Era um bicho bonito, elegante, forte, com músculos típicos de um campeão. A missão do meu avô era transformá-lo em uma máquina de matar. 
O treino era todo cheio de requintes: ele colocava uma ave de frente para outra e as impulsionava a se bicar e a usar as esporas, que são como que unhas laterais que existem naturalmente nas pernas dos galos. Aliás, meu avô também tratava destas esporar, afiando-as com muito cuidado e deixando também os bicos bem pontiagudos. Cuidou deste lutador por quase uma semana. 
No domingo daquela semana, dia da luta, ele foi ao quintal e voltou desesperado: onde estava o galo? Tinha sumido e não havia rastro. O dono chegou e não acreditava. Ficava dizendo, apoiado no alpendre perto do poço d´água: “Vamos sair e procurar. Se ele cantar eu reconheço”. Nada, nem sinal. Enfim, foram todos para a rinha, inclusive meu avô, desolado. 
Mais tarde, ele voltou e depois do banho, quis comer. Enquanto terminava de se arrumar perguntou para minha avó: “Estrela, estou com fome. Tem comida?” 
Ela respondeu lá de dentro: “Tem sim, pode pegar na cozinha”. 
Ele foi, e enquanto pegava um prato e levantava a toalha para chegar às panelas em cima do fogão à lenha perguntou: “O que você fez? Está cheirando bem.”
Ela disse com calma e um sorriso no cantinho da boca: “Você vai gostar. Fiz frango assado”.
 

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