O futuro já começou pelas tempestades. Nos últimos dias, Presidente Prudente e diversas cidades da região voltaram a receber alertas de chuvas intensas, ventos fortes e risco de alagamentos. Aos poucos, eventos extremos deixam de ser exceção e passam a integrar a rotina climática das cidades.
Em meio a esse cenário, um vídeo do economista e comunicador, Eduardo Moreira, repercutiu amplamente nas redes sociais ao mostrar que o mundo poderia enfrentar um “super El Niño” com impactos potencialmente catastróficos. O tom do vídeo chama atenção para uma preocupação muito alarmante. Pesquisadores do Cemaden lembram que há, sim, alta probabilidade de ocorrência do El Niño entre 2026 e 2027. As projeções indicam chances superiores a 90% de formação do fenômeno na segunda metade do ano.
O problema maior pode ser que nossas cidades já demonstram dificuldade em responder aos eventos extremos do presente.
Basta uma chuva mais intensa para o Parque do Povo alagar, árvores caírem, o fornecimento de energia ser interrompido e o trânsito entrar em colapso. Tudo isso em eventos que, até poucos anos atrás, eram tratados como episódicos. Hoje, porém, começam a compor uma nova normalidade climática. A cidade parece funcionar no limite.
E continuamos planejando cidades como se o clima permanecesse estável, enquanto a própria realidade já mostra exatamente o contrário.
O debate climático deixou de ser apenas ambiental há muito tempo. Tornou-se urbano, social, econômico, político e de segurança pública. Porque os impactos não atingem todos da mesma forma. Quem mora próximo a fundos de vale sofre primeiro. Quem vive em bairros pouco arborizados enfrenta temperaturas mais altas. Quem depende do transporte público sente mais rapidamente os efeitos do colapso. Quem possui menos recursos financeiros têm menor capacidade de proteção e reconstrução.
Os próprios pesquisadores destacam que desastres climáticos não dependem apenas da intensidade dos fenômenos naturais, mas também da vulnerabilidade das populações e da capacidade de proteção das cidades. Em outras palavras: a tragédia não nasce apenas da chuva, mas também das desigualdades que o próprio modelo capitalista produz sobre o território.
É aí que está a principal questão do nosso tempo. Se já enfrentamos dificuldades para responder às emergências climáticas do presente, como serão as decisões do futuro diante de eventos ainda mais extremos? Como as cidades irão proteger suas populações mais vulneráveis? Como reorganizar infraestrutura, mobilidade, energia, drenagem urbana e planejamento territorial em um cenário de instabilidade permanente?
A emergência climática não pode mais ser tratada apenas como um debate distante ou técnico. Ela já atravessa o cotidiano das cidades médias brasileiras, interfere na vida urbana, nos serviços públicos e na própria capacidade de funcionamento dos territórios. O futuro talvez não esteja chegando. Ele já esteja se anunciando nas tempestades que começam a transformar aquilo que antes parecia exceção em rotina.
Referência Sugerida
CENTRO NACIONAL DE MONITORAMENTO E ALERTAS DE DESASTRES NATURAIS (CEMADEN). Portal institucional. Brasília: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, 2026. Disponível em:CEMADEN. Acesso em: 21 maio 2026.