O clima no escritório montado no Prudenshopping, na tarde da última quarta-feira, operava em uma frequência distante da habitual calmaria do comércio ao redor. Sobre a mesa, mapas, planilhas e o peso de uma decisão silenciosa que pode redesenhar o mapa econômico do oeste paulista. Rostos compenetrados e gestos firmes de homens que representam a força do PIB (Produto Interno Bruto) regional ditavam o tom da reunião. Os presidentes dos principais sindicatos rurais da região não foram até ali para uma mera visita de cortesia. Foram emitir um manifesto de resistência: Presidente Prudente não pode, sob hipótese alguma, perder a Feicorte (Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne).
Agendada para ocorrer entre os dias 23 e 26 de junho, a feira é o coração pulsante da Cadeia Produtiva da Carne, reunindo genética, nutrição, gestão e o que há de mais moderno para o produtor. No entanto, os bastidores revelam uma disputa feroz.
Cidades de outros estados, com destaque para o forte assédio de Londrina, no Paraná, tentam seduzir os organizadores para mudar a praça do evento. O motivo? O Recinto de Exposições de Presidente Prudente encontra-se depreciado, demandando reformas urgentes e aportes financeiros vultuosos que hoje travam o pleno potencial da feira.
A UNIÃO DE FORÇAS CONTRA O ÊXODO
Diante do risco iminente de ver o maior patrimônio do agronegócio regional migrar para outras terras, Carla Tuccilio e Ailton Barbosa, coordenadores da agência Verum — empresa que assina a organização da Feicorte —, abriram as portas do comitê para receber uma comitiva de peso. Estavam presentes Thiago Jacintho (presidente do Sindicato Rural de Presidente Prudente), Odimir Liberati (Presidente Bernardes), Marcos Antônio (Santo Anastácio), Gustavo Gorgulho (Presidente Venceslau), Daniel Pagossi (Dracena) e Ricardo Marcelo Carlos Freitas, presidente da União das Entidades de Presidente Prudente (UEPP).
A recepção transformou-se em um pacto de apoio mútuo. Carla Tuccilio foi categórica ao definir o tamanho do evento para a economia local. "A Feicorte hoje não é mais só um evento. Ela é um grande movimento, onde fomentamos o setor e fomentamos também Prudente e região", explicou a coordenadora.
Para conter o êxito da feira, os presidentes dos sindicatos prometeram acionar as mais altas esferas políticas e institucionais. O plano de ação inclui o engajamento em massa dos associados e uma ofensiva direta junto ao governador do Estado e ao presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP).
OS GARGALOS INVISÍVEIS DOS BASTIDORES
Embora a qualidade técnica e o sucesso estrutural da feira sejam indiscutíveis, os organizadores não escondem os espinhos no caminho. Ailton Barbosa pontuou com transparência que a reunião serviu para descortinar os enfrentamentos diários da produção de um evento desse porte. "É uma pauta leve, mas trazemos problemas pontuais. Queremos que eles tragam seus associados, mas também colocamos os problemas que ocorrem e quão importante é a força deles para superarmos isso juntos", destacou Barbosa.
O organizador lançou luz, ainda, sobre um paradoxo incômodo: o distanciamento de grandes empresas locais e a falta de visão estratégica do poder público.
"Empresas fortes de Prudente movimentam outros cenários e, por vaidades ou motivos outros, não participam aqui. Buscamos também o apoio do governo. É uma oportunidade de relacionamento que o governo pode aproveitar de forma assertiva para mostrar seus programas e se colocar como parceiro do produtor", pontuou Ailton.
OS DESAFIOS DA FEICORTE
Gargalos de Infraestrutura VS Potencial de Fomento
• Recinto depreciado • Tecnologia de Manejo
• Assédio de outras praças • Genética e Nutrição
• Falta de apoio público • Atração de Investimentos
O SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO
Apesar dos pesares, o tom que prevaleceu no encontro foi o da gratidão e do compromisso com o desenvolvimento do interior. Cientes de que a agência Verum tem feito o impossível para manter as estacas fincadas no solo prudentino, as lideranças rurais assumiram a responsabilidade de blindar o evento.
Thiago Jacintho, porta-voz do Sindicato Rural de Presidente Prudente, fez questão de formalizar o agradecimento coletivo aos organizadores pela resiliência demonstrada.
"Terem escolhido a nossa cidade, a nossa região há três anos e estarem se propondo a isso mesmo com todas as dificuldades... Em nome de todos aqui, eu tomo a frente e agradeço demais por estarem na vanguarda de um evento tão grandioso, proporcionando o desenvolvimento da nossa região com tanta qualidade", enfatizou Jacintho.
O desfecho dessa queda de braço entre o descaso estrutural e o brio das lideranças do campo ditará os rumos do agronegócio regional. A Feicorte é o espelho de um interior que produz, alimenta e inova. Mantê-la em Presidente Prudente deixa de ser uma questão de conveniência comercial e passa a ser uma defesa intransigente da própria identidade econômica do oeste paulista, lembrando que a riqueza gerada na terra precisa frutificar, prioritariamente, onde suas sementes foram plantadas.

REUNIÃO DOS SINDICATOS RURAIS COM OS ORGANIZADORES DA FEICORTE

AILTON BARBOSA E CARLA TUCCILIO, ORGANIZADORES DA FEICORTE: “COM A FORÇA DOS SINDICATOS RURAIS, PODEMOS SUPERAR AS DIFICULDADES E MANTER A FEICORTE EM PRESIDENTE PRUDENTE”

THIAGO JACINTO, PRESIDENTE DO SINDICATO RURAL DE PRESIDENTE PRUDENTE: “EM NOME DE TODOS AGRADEÇO POR ESTAREM NA VANGUARDA DE UM EVENTO TÃO GRANDIOSO, PROPORCIONANDO O DESENVOLVIMENTO DA NOSSA REGIÃO COM TANTA QUALIDADE"