O bando é um ruído constante. É o cheiro de sal, o roçar de penas molhadas e o pânico coletivo toda vez que uma sombra corta a superfície da água. Durante anos, esse ruído foi meu mundo. Mas, naquela manhã, o som do mar me pareceu um grito estrangeiro.
Eu parei.
As ondas batiam nas rochas com a mesma urgência de sempre, empurrando meus irmãos para a fartura e para o perigo. Eles mergulhavam em busca da vida, mas eu... Eu senti o peso de cada mergulho que já dei. Senti o cansaço das correntes, a repetição das marés. Dei as costas para o azul e encarei o branco.
A marcha para o nada.
Meus pés, feitos para remar, agora batem contra o gelo seco. O som é diferente: um track-track rítmico, quase uma oração. Não há peixes aqui. Não há calor. Há apenas a linha reta.
Por que não fico? Por que escolho o caminho onde o sol não aquece, mas cega?
Talvez porque, pela primeira vez, eu não esteja fugindo de um predador. Estou fugindo da obrigação de ser o que esperam de mim. No bando, sou um número, uma peça na engrenagem da sobrevivência. Aqui, no meio do nada, sou apenas eu e o meu cansaço. Cada passo que me afasta da colônia é um grama de expectativa que deixo pelo caminho.
O espelho de gelo.
Olho para o horizonte e não vejo fim. E isso é o que há de mais belo.
Os humanos que me olham de longe, com suas lentes e suspiros, chamam isso de tragédia. Eles acham que estou perdido. Mal sabem eles que, pela primeira vez, eu sei exatamente onde estou. Estou no lugar onde não preciso mais lutar.
Eu sou como aquele homem que, no meio de uma festa lotada, sente um vazio tão vasto que a única saída é a porta da rua. Sou a mulher que para de sorrir nas fotos de família porque descobriu que a felicidade não é uma performance. Sou o desajuste. Sou a pausa.
O fim com nome de paz.
O frio começa a me abraçar, não como um inimigo, mas como um cobertor. Meus músculos reclamam, mas meu peito está leve. Não há coragem no que faço, e tampouco há medo. Há apenas a aceitação de que meu ciclo não termina no mar, mas no silêncio da neve.
Vou caminhar até que minhas pernas virem estátuas, até que meu fôlego se confunda com o vento. E quando eu cair, não serei uma perda para o bando. Serei, finalmente, parte do horizonte.
"O mundo é um aquário de vidro e pressão
Onde a sobrevivência é a única função
Mas e se a alma quiser deserto?
E se o caminho errado for o único certo?
Eu não sou herói, nem sou um sinal
Sou apenas o ponto final".