O inimigo silencioso que rouba a visão

SINOMAR CALMONA

No Dia Nacional de Combate ao Glaucoma, oftalmologista Lenine Botigelli alerta para o risco da cegueira irreversível

COLUNA - Sinomar

Data 26/05/2026
Horário 05:15
O oftalmologista Lenine Botigelli, especialista em catarata e glaucoma
O oftalmologista Lenine Botigelli, especialista em catarata e glaucoma

A penumbra do consultório é quebrada apenas pelo feixe luminoso e azulado da lâmpada de fenda. Diante do aparelho, um paciente de 45 anos apoia o queixo, imóvel, enquanto o médico aproxima a lente para examinar o fundo do olho. O exame é rápido e indolor, mas o diagnóstico carrega o peso de uma urgência invisível. Sem que o paciente sentisse qualquer dor ou embaçamento na rotina, uma pressão interna silenciosa começava a estrangular as estruturas mais profundas de sua visão. É essa natureza traiçoeira que faz o dia 26 de maio se consolidar como o Dia Nacional de Combate ao Glaucoma — uma data para expor uma das patologias oculares que mais preocupam a medicina global.
Como especialista em catarata e glaucoma o oftalmologista Lenine Botigelli lida diariamente com esse avanço sutil. Ele explica que a doença se caracteriza como uma neuropatia óptica, uma lesão progressiva no nervo responsável por levar as imagens ao cérebro, provocada principalmente pela elevação da pressão intraocular. O grande perigo, no entanto, reside no fato de que o dano é definitivo. Ao contrário da catarata, que pode ser revertida com cirurgia, a perda de fibras nervosas causada pelo glaucoma não retrocede.

O MAPA DA VULNERABILIDADE OCULTA
O limite do que os olhos suportam sem sofrer danos costuma ser medido em milímetros de mercúrio. Quando a pressão intraocular ultrapassa a marca dos 21 mmHg, o sinal de alerta máximo é acionado no consultório. Porém, o médico ressalta que a pressão elevada não caminha sozinha e o cruzamento de dados clínicos revela grupos que exigem atenção redobrada a partir dos 40 anos de idade.
"Deve-se levar em conta o histórico de glaucoma na família, que eleva o risco genético, além de fatores como alta miopia, raça negra e diabetes", pontua Botigelli. Ele lembra ainda que o histórico de traumas oculares e o uso contínuo e sem supervisão de medicamentos corticoides funcionam como gatilhos silenciosos para a alteração da dinâmica dos fluidos dentro do olho.

A ARMADILHA DO ÂNGULO ABERTO
O maior desafio no diagnóstico precoce é a ausência completa de dor na variante mais comum da doença, o glaucoma de ângulo aberto, sendo responsável por 80% dos casos. O paciente continua enxergando o centro do mundo com clareza, enquanto a periferia do seu campo visual vai se apagando como uma pintura que perde as bordas. A perda da visão central só se manifesta quando o quadro já atingiu estágios criticamente avançados, restando pouco tecido nervoso a ser salvo.
Existe, contudo, um cenário de ruptura desse silêncio. Nos episódios de glaucoma de ângulo fechado agudo, a pressão atinge níveis alarmantes de forma súbita. O clímax desse processo se dá com dores oculares lancinantes, náuseas e um embaçamento visual abrupto. É o momento em que o olho clama por socorro imediato e a busca pelo pronto-socorro oftalmológico torna-se a única barreira entre o paciente e a escuridão definitiva.
Por se tratar de uma condição crônica, o glaucoma não oferece uma cura definitiva, mas sim a possibilidade real de um controle rigoroso que preserva a autonomia do paciente por toda a vida. A estratégia médica desenhada por Lenine Botigelli foca em estabelecer uma "pressão alvo" personalizada para cada indivíduo, reduzindo a força interna exercida sobre o nervo óptico.
O sucesso na contenção da neuropatia baseia-se na constância. Na grande maioria dos casos, o uso correto e diário de colírios específicos é suficiente para estabilizar a progressão. Quando o tratamento clínico esbarra em limites biológicos, a medicina intervém com a tecnologia laser ou com procedimentos cirúrgicos para criar novas vias de escoamento para o líquido ocular. O próximo capítulo para quem recebe o diagnóstico não precisa ser o medo, mas sim o compromisso com as consultas regulares; afinal, a preservação do horizonte depende inteiramente da antecedência com que se descobre o perigo.


ILUSTRAÇÃO EXEMPLIFICA A PROGRESSÃO DO GLAUCOMA: PERDA DA VISÃO CENTRAL SÓ SE MANIFESTA QUANDO O QUADRO JÁ ATINGIU ESTÁGIOS CRITICAMENTE AVANÇADOS


O PACIENTE CONTINUA ENXERGANDO O CENTRO DO MUNDO COM CLAREZA, ENQUANTO A PERIFERIA DO SEU CAMPO VISUAL VAI SE APAGANDO COMO UMA PINTURA QUE PERDE AS BORDAS

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