O jovem estudante, com pouco menos de 20 anos, cabelos compridos e mente aguçada, observa o mundo que se descortina, sem cerimônia, diante de si e dos outros. Todos estão ali, como ele, mas, apenas ele consegue ver a novidade que se apresenta. Como fora possível, ele pensa, ter vivido até aqui sem saber disso que agora, se apresenta, tão nitidamente, diante de seus olhos. O conhecimento, antes restrito e involuntário, às escusas, e soterradamente, nunca se mostrara de forma tão vívida quanto agora.
Aqui, nesse lugar, as pessoas dedicam-se a ele com afinco. Os mestres, o produzem, ou procuram fazê-lo, com pesquisas, experimentos, estudos e análises, enquanto os discípulos, o buscam, talvez, pela primeira vez em suas curtas existências. Não há restrições ou amarras e todas as áreas do conhecimento podem ser igualmente importantes, a depender do observador, sobretudo ali, onde ele é sagradamente cultivado. Evidentemente que, muitos o fazem por interesses escusos, mas não há dúvida de que o conhecimento floresce, vigorosamente, naquele espaço.
Ainda surpreso, o jovem reflete em como poderia ser possível semelhante situação. A seus olhos, aquilo parecia inédito, não por ignorância deliberada de sua parte, mas das circunstâncias advindas, talvez, de sua origem e condição social. Observava e surpreendia-se, a todo instante, com aquela sincera relação que muitos buscavam com o saber. De forma romântica, é preciso dizer, ele não percebia que tudo aquilo era ilusório, uma terra do nunca, talvez, para poucos ou muito poucos.
Olhando bem, contudo, passou a perceber as nuances daquele idílico lugar, arborizado, com majestosos espaços gramados, prédios modernistas, tempo disponível, um certo ar descontraído, feliz até, de seus frequentadores, cheios de ideias, sonhos e incríveis projeto de conhecimento e de vida. Aquilo não parecia para todos e mesmo para ele talvez não o fosse. Percebera, com certo desgosto, que os mais favorecidos privilegiados eram os mais comuns.
Mas esses, como se sabe, preferem ofícios menos cultos, enquanto os demais, geralmente, buscam as profissões mais intelectualizadas, sem o saber, tornando-se, na prática, professores intelectualizados, de maneira que suprem, em demasia, o desfavorecimento econômico com a ascensão intelectual. Mas tudo isso, não se percebe, assim, de imediato, e sem o saber, o jovem estudante seguia os passos de forma incontida, desleixada e sem horizontes.
Anos mais tarde, longe dali, retornando aos seus, finalmente pôde perceber que havia se transformado, inteiramente, por todos aqueles caminhos abertos pela universidade, que fez dele o que ele é. O mesmo, por um lado, mas inteiramente outro, pois não se reconhecia mais entre aqueles com os quais cresceu e conheceu a vida. Não se deixem enganar, a humildade e a sobriedade do jovem o fizeram perceber, por fim, que para a maioria a ignorância reina, indelevelmente, de modo que percebera, então, que dali ele não sairia jamais, para viver, ilusoriamente. O mundo lá fora é horrível demais para ser suportado.