O ser humano, o trabalho e a linguagem

OPINIÃO - Saulo Marcos de Almeida

Data 22/03/2022
Horário 04:30

Creio na ressurreição do corpo

Apesar das dificuldades de compreensão antropológica, ainda concebo o homem como um ser histórico e social. Vale dizer que esta observação sobre o ser humano já o diferencia de todos os outros animais existentes. 
Esses possuem uma programação biológica definida, pronta, pois tudo lhes é passado (transmitido) de uma geração para a outra seguinte, sem a necessidade de qualquer educação ou consciência. Sua estruturação orgânica está completa, inscrita em seu DNA, devendo o seu comportamento manter-se sempre fechado em relação ao mundo. Para sobreviver, adaptam-se à natureza. O animal é o seu corpo. 
O ser humano, por sua vez, não tem um planejamento biológico acabado/fechado que o leve a fazer sempre as mesmas coisas.  
Pode, então, transformar e ser transformado num processo em movimento e, permanentemente inconcluso, onde as relações/relacionamentos nunca se acabam. O ser humano tem e faz o seu corpo/mundo. 
Em outras palavras: o animal toma o mundo como lhe é dado. O homem não toma a natureza como seu limite e, como ela se apresenta ameaçadora, ele (sujeito) procura transformá-la a fim de que a mesma se ajuste às suas exigências e necessidades. 
Aqui nasce o trabalho. Não como maldição divina ou fardo insuportável, que aguarda incessantemente a aposentadoria. Mas, como dádiva/graça, de onde se extrai o sustento e se preserva a vida e toda a criação. 
Supõe-se que desta atividade humana (trabalho), surgiram os universos simbólicos e as técnicas que visam à eficiência do corpo. 
Concebo, então, o homem como um ser histórico e que parece estar desadaptado de seu habitat, tornando-se um ser com o mundo. 
Essa característica ímpar do ser humano o faz ser aberto, hábil para responder e não apenas reagir (como os animais) frente às imposições do ambiente e da vida. 
Responde porque tem a vocação para a liberdade e, ao fazer isso, torna-se histórico, juntamente com o mundo já humanizado. 
Há nessa dimensão o aprendizado e a educação que, vistas e observadas pedagogicamente, nada mais são do que o processo por meio do qual aprende-se uma forma de humanidade. 
Aprender sobre a vida humana é tomar conhecimento de uma linguagem, tornando-se partícipe de um mundo que, às vezes e infelizmente, é hostil e violento!
Aprendi com um filósofo que “os limites da minha linguagem, são os limites do meu mundo”. Em outras palavras: a linguagem define a realidade vivida de cada um/uma criando uma comunidade ligada a uma mesma meta e experiência similar (a linguagem expõe e determina uma comunidade). 
Contudo, também levanta fronteiras, determina seus limites e parte para o ataque daqueles que não comungam da mesma representação e significados. Eis aí a guerra, brutal e desumana a afrontar a vida! 
Ao habitar o mundo criado e tornando-se corpo, Jesus estabeleceu um vínculo com o homem e sua história ao longo de sua experiência humana. 
Ao se oferecer e, gratuitamente, doar-se em compaixão, comprometeu-se com a liberdade e a vida abundante que veio trazer. Sua linguagem: Paz na terra aos homens a quem Ele concede o seu favor!
A ressurreição de Cristo na história da humanidade autentica a linguagem pacificadora e de amor que veio trazer (por Deus e pelo próximo). Exige a bondade aos que mais necessitam e carecem de misericórdia e compaixão. Ressurreto faz de novo nascer a esperança no futuro, que certamente está a nos aguardar. 
 

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