A cada quatro anos a Copa do Mundo reúne os amantes, interessados e indiferentes para assistir aos jogos. Num jogo há alguns momentos de tensão, aqueles de “perigo de gol” para a seleção brasileira ou para o adversário. Um destes momentos é a cobrança de pênalti, mesmo quando é a favor do Brasil. Independentemente do seu perfil de torcedor, você já se imaginou na posição de um jogador dentro de campo na situação de cobrar um pênalti, seja durante os 90 min ou nas cobranças finais para desempate?
LOTERIA
A cobrança de pênalti tem apenas dois resultados possíveis: gol ou não gol (chute para fora/na trave ou defesa do goleiro). Por décadas foi uma situação que dependia da sorte do cobrador e do goleiro, tal qual uma loteria, jogo de dados ou cartas. A sorte do cobrador era acertar na dose da força e na colocação do chute num dos quatro cantos do gol, onde é mais difícil para o goleiro defender. Este último, por sua vez, dependia da sorte de “adivinhar” o lado certo do gol para pular e que o chute não fosse tão forte e bem colocado, ou que fosse na trave ou para fora.
PREPARAÇÃO E EFICIÊNCIA
Em qualquer atividade motora (como chutar pênalti) ou cognitiva a eficiência é resultado da prática deliberada, repetida, analisada e corrigida em cada detalhe. Acertar o canto superior direito ou o canto inferior, bem rente à trave, centenas de vezes a cada treino (inclusive em horário extra, como faziam Michael Jordan e Kobe Bryant com os arremessos no basquete) torna o jogador proficiente e diminui significativamente o risco de erro na situação real. Treinar pelo menos duas opções de cobranças também é recomendado, já que os goleiros são informados sobre padrão (estatística) de cobranças dos adversários.
NEUROCIÊNCIA
Porém, a tranquilidade de treinar cobranças com o gol livre ou com goleiro companheiro do time é diferente da cobrança na tensão de um jogo, principalmente se for decisivo, estando atrás do placar, com pressão da torcida e responsabilidade com o time. O jogador precisa ser exposto a doses progressivas de tensão e desconforto, adquirir pleno controle do estado emocional nas situações de maior pressão. Tal exposição o torna capaz de minimizar a atividade da amígdala (emocional) e maximizar a atividade do córtex pré-frontal (razão/decisão) para a análise e ação com precisão. Precisa também ter planejado antecipadamente e estar decidido sobre a opção de cobrança, antes de colocar a bola na marca do pênalti. E precisa expressar em seu gestual corporal que está inequivocamente confiante e seguro do sucesso da cobrança. Demonstrar-se inabalável naquele momento, independentemente das provocações do goleiro, outro adversário, da torcida. Especialmente o goleiro à sua frente, seja quem for, deve perceber sua resolução e firmeza.
SEU PÊNALTI
Certamente, 99,9% dos leitores deste texto nunca terão a responsabilidade de cobrar um pênalti numa Copa do Mundo ou mesmo campeonato estadual (talvez numa competição society de clube). Porém, muitos enfrentarão uma prova de seleção ou concurso, a apresentação de um projeto num ambiente profissional competitivo, a participação numa competição de outros esportes, uma apresentação de dança/musical ou, até uma situação inesperada de tensão. A prática deliberada e repetitiva, a experiência de exposição à tensão e ao desconforto para manter o controle emocional, e a aquisição de autoconfiança e autoeficácia, são aplicáveis nestas e em outras situações profissionais e pessoais.
Seu “pênalti” pode ser uma prova de seleção ou concurso, apresentação de projeto num ambiente profissional, apresentação de dança/musical etc.
Referências
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