A felicidade veio visitá-lo, sorrateiramente, sem anúncios prévios, em um sonho, curto e derradeiro. Procurava entender aquelas sensações, inéditas e infinitas, que pôde contemplar naquelas circunstâncias. A natureza da realidade segue incerta e em suspeição. Naquele momento, porém, tudo pareceu claro e a vida era apenas contentamento. No idílico, tudo se resumia a uma penumbra, uma neblina densa e clara. Sua avó o esperava, sorrindo:
___ Vó? Não esperava encontrá-la! Que alegria a minha de poder vê-la. Como está?
___ Estou bem, estamos todos muito bem. Me preocupo com seus sentimentos, mas sei que vai indo bem. Sua filha está linda! Disse a vozinha, com sorriso largo, voz clara e embargada.
___ A gente se sente muito só na vida Vó. Sinto falta de todos e o vazio parece permanente, apesar das crianças, que estão sempre comigo. Um dia estaremos todos juntos, assim me parece. O que tem feito, afinal? Perguntou, com certa inocência e alegria.
___ Bem, eu tenho estudado muito, quase sempre. Demorei a entender certas coisas, mas agora, tudo parece mais claro. Seu avô e seu tio estão sempre comigo. Temos tido muitas lições, difíceis, mas nenhuma delas se compara ao que vivemos, essas sim, demasiadamente penosas, na existência comum. Além disso, estamos sempre de olho, acompanhando suas vidas, suas dificuldades e suas aflições. É parte de nosso aprendizado. Em breve teremos uma nova oportunidade e não sei se estaremos aqui para recebê-lo, em sua chegada. O melhor de tudo é ter paz, saiba disso. Respondeu a avó, com paciência e sabedoria, sorrindo sempre.
O homem não entendia as mudanças que observava na sua avó, antes taciturna, agora, com certa eloquência. Parecia mais jovial, atenta e disposta do que antes e mesmo sua forma de falar não era a mesma. A neblina continuava forte, embora o espaço estivesse iluminado. Tinha muitas dúvidas e seus pensamentos pareciam calmos, embora desconexos. Sentia-se alegre. A avó apenas o olhava, enquanto tocava suas costas, com reverência e carinho. “Tudo isso deve acabar logo”, pensou enfim.
Acordou e o peso da vida se fez sentir. Sentia-se mal, com certo desconforto. Levantou-se, foi até a janela e a abriu. O céu estava azul e límpido, com poucas nuvens. Pôde ver, ao longe, algumas árvores, cujos galhos e folhas agitavam-se com o vento. Estava frio, mas pouco. Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas não estava triste. Antes disso, era apenas o sentimento do viver. Uma dor, inexplicável, mas sempre presente. Uma angústia sem motivo e sem razão, parte integrante de sua vida, cotidiana e sempre ali, de uma forma ou de outra.
Secou as lágrimas e sorriu um pouco, para si mesmo, internamente. Lembrou-se da sua vó e do curto sonho que teve com ela. “As coisas são como são, incompreensíveis, a angústia é a própria vida, aparentemente”. Enquanto refletia, o vizinho gritou da rua:
___ O seu Antônio, hoje tem jogo hein, todo mundo vai assistir lá no Bar do Pereira, blz? Cê vai né?