O último compasso do Roy do Pandeiro

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 13/02/2026
Horário 05:04

A morte é uma visita sem relógio. Ela não pede licença, não consulta a agenda e não escolhe o cenário; simplesmente entra em cena e altera o roteiro. Ontem, às 11h40, o tempo parou de um jeito diferente. Recebi a mensagem da Dra. Cinthia — psicóloga intensivista da Santa Casa, que lida diariamente com a linha tênue da UTI: "Pérsio, pode vir aqui na Santa Casa, houve uma intercorrência com seu irmão Roy". Naquele instante, o coração já pressentia o que as palavras tentavam suavizar.
Meu irmão enfrentava as consequências de um AVC muito grave e estava há mais de 30 dias em coma, mergulhado em um silêncio que a nós angustiava. Fomos eu e minha "Mulher Maravilha" ao encontro do inevitável. Chegando lá, fomos acolhidos pela Dra. Fabiana e pela Dra. Cinthia com a dignidade que o momento pedia. O veredito era definitivo: o coração do Roy havia decidido descansar. Parou de bater as 11h40.
Neste momento de dor, é impossível não registrar o meu mais profundo agradecimento e de toda a minha família à equipe médica e de enfermagem. Vocês trataram o Roy com um zelo e um carinho que transcendem o dever profissional. Um agradecimento especial ao Dr. Becegato, — um amigo querido, que cuidou do meu irmão com a dedicação e o amor de quem cuida do próprio sangue e a Dra. Fabiana, uma poesia na área médica. 
Há uma poesia triste e bela na partida do Roy. Ele se foi às vésperas do carnaval, a data em que ele mais se sentia feliz, quando a cidade começa a pulsar no ritmo que ele tanto amava. O "Roy do Pandeiro" escolheu a saída estratégica justamente quando os tambores começam a aquecer. Seu pandeiro não era apenas um instrumento; era seu passaporte para o mundo, sua voz e sua maneira de viver à sua maneira, sem partituras rígidas, carregando o couro e o metal sob o braço como quem carrega a própria alma.
Dizem que o show só termina quando o último instrumento se cala, mas com o Roy é diferente. Ele não nos deixou um silêncio vazio; deixou uma vibração no ar. Se o carnaval aqui embaixo está para começar, no céu a festa acaba de ganhar o seu melhor ritmista. Vai se encontrar com outro irmão querido, Teco, que nos deixou há poucos dias. Certeza que essa dupla vai fazer o céu sorrir e sambar. 
Consigo imaginar a cena: ele chegando de mansinho, testando o couro do pandeiro e dando aquele estalo seco que faz todo mundo olhar. Roy não morreu; ele apenas mudou de bloco. Ele agora é a cadência do vento e o som que ecoa toda vez que um coração bater no ritmo do samba.
Vá em paz, meu irmão. O desfile agora é na eternidade, e a sua nota, com certeza, é dez. Vamos cantar juntos como sempre cantamos esse samba de Nelson Cavaquinho:
"VOU PARTIR
NÃO SEI SE VOLTAREI
MAS NÃO ME LEVE A MAL
HOJE É CARNAVAL
PARTIREI PARA BEM LONGE
NÃO PRECISA SE PREOCUPAR
SÓ VOLTAREI PRA CASA
QUANDO O CARNAVAL ACABAR..."
 

Publicidade

Veja também