O último dia de Claudio, o profeta

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 02/05/2026
Horário 04:30

Chegado o dia da morte de Claudio, cujos detalhes narrei na primeira ocasião em que passei a relatar a incrível peripécia de nosso personagem com a existência e seus aconteceres cotidianos, é chegado o momento de ouvirmos os pensamentos de Claudio no derradeiro dia. Como sabemos, Claudio aguardara pacientemente que a morte o buscasse, o que, de fato, aconteceu, muito embora de forma totalmente inesperada para Claudio, que previra o dia, mas não a forma com a qual morreria. É possível que tenha considerado, se isso for possível, uma morte tola. Essa resposta, nunca teremos. Podemos, entretanto, narrar seus pensamentos em um dia tão incomum. 
“Café tava bom, mas o tabaco não. Coisa horrível, sempre gostei, hoje tá estranho. Coitada da muié, vida inteira do meu lado, casada com um ‘loco’, coitada, acostumou me chamarem assim. As crianças cresceram desse jeito, nem ligam, ainda mais depois que ficamos ricos. Fazer o quê? Medo eu tenho, desse sofá não saio. O que pode me acontecer, aqui, assim, sentado? Dói ver essa coitadinha na porta, aflita, tá sofrendo! Tá cedo ainda, será que vai ser logo? Pode nem ser. Talvez amanhã esteja aí, andando pra lá e pra cá, com meus livros. E se for hoje? Bom, não posso fazer muita coisa”.
“Vida foi boa! Não posso reclamar não. Casei bem, crianças boas. Esse dinheiro todo, nem sei quanto tem ainda. Não trabalhei muito, um pouco só. Coisa boa demais. Vida tranquila, como tava previsto. Sofri um pouco com essas visões aí, me confundi um pouco. Tô com medo, mas pode ser bobagem da minha cabeça. Quem é que sabe. Pode ser e pode não ser. Tanta coisa acontece na vida da gente, todo mundo morre, pelo menos isso. Pode ser hoje a minha vez. Rapaz, que medo. Só não posso deixar ver, a mulher vai chorar. Esse povo todo aí fora, coisa ridícula. Acreditam né, ganhei na esportiva, milagre isso. Profeta eu não gosto, nunca gostei desse nome aí de profeta, agora é tarde”. 
“Estranho, mas o dia tá passando rápido hoje. Sempre passou devagar, tinha tempo, caminhava bastante, li demais, sobrava tempo ainda. Vida tranquila, tava previsto. Fácil também não foi não, apesar de tudo. Essa angústia danada, pelo menos, de hoje não passa. S não morrer hoje, pelo menos me livro dessa dúvida. Será que Jesus era assim também? Dúvida? Sei não. Tenho medo lascado da morte. Daqui não me levanto mais pra nada. Só tomei água, nem fome me deu mais. Deve ser hoje mesmo. Se morrer hoje, não vou saber mesmo, já vou tá morto. Ninguém morre assim, sentado no sofá. Meu coração tá bom, não tenho problema de saúde. Se não acontecer param de me chamar de profeta, esse povo besta aí fora”. 
“Oh mulher, me vê aí um copo d´água, boca seca de lascar, traz a garrafa. Sede estranha, nuca tenho tanta sede assim. Tô paralisado já, meu Deus do céu. Esse negócio de morrer com dia marcado não é brincadeira. Quase cinco horas e nada. Que bobeira a minha, passei a vida acreditando nisso, não viajei, não aproveitei quase nada da vida por causa disso. Bom, morrer nós vamos mesmo, mas minha vida foi esquisita, bobagem minha, podia ter feito igual os outros, vivido e aproveitado essas coisas todas. Vou no banheiro, na volta, pito um cigarro e vou jantar e que se dane as profecias”. 
Levantou-se, caminhou até a porta, ao cruzar o batente, o pesado relógio de madeira caiu em sua cabeça e Claudio, o profeta, morreu, sem mais e nem menos. 
 

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