O Morro do Adeus não tem esse nome por acaso; é um batismo de ferro onde as despedidas acontecem antes mesmo dos encontros. Lá, Marcinho cresceu entre o estalo do rádio comunicador e as letras de samba-enredo que decorava com uma facilidade assustadora. Era um adolescente de inteligência cortante, filho de um alcoólatra que a escuridão de uma viela engoliu atropelado por um carro sem freio, e de uma mãe prostituta que no silêncio da noite voltou para as ruas para vender seu corpo que ainda atraía velhos ricos e pobres de juventude.
Numa tarde de mormaço, sentado no parapeito de uma laje furada, Marcinho olhava para o seu fiel amigo irmão, o Caolho. O amigo tentava ajustar o foco no movimento da polícia lá na entrada da Grota, limpando a única lente de um óculos remendado. Foi quando Marcinho, resgatando uma pérola do cinema marginal que encontrara em um jornal jogado no lixo, disparou a frase emblemática de Rogério Sganzerla:
— Sabe, Caolho... o cineasta Rogerio Sganzerla dizia que "feliz é o caolho que enxerga a realidade em um olho só".
O amigo parou o movimento das mãos. Ele não conhecia o famoso diretor do cinema marginal e que dirigiu o clássico filme, “O Bandido da Luz Vermelha”, mas a frase bateu no seu peito como uma alforria poética. Caolho abriu um sorriso largo, banguela e iluminado, sentindo-se subitamente privilegiado. Ele via menos, logo, sofria menos com as distrações do mundo. Naquela fração de segundo, a deficiência virou superpoder.
Mas no Morro do Adeus, a felicidade é um plano-sequência que a realidade insiste em cortar com violência.
Horas depois, o silêncio da tarde foi estraçalhado pelo ronco dos blindados. O BOPE subiu com a "licença para matar" costurada na farda e a pressa de quem não distingue figurante de protagonista. Estavam atrás de Mug, o dono do tráfico do Morro do Adeus. No meio da correria e do cheiro de pólvora, um disparo de fuzil atravessou a geografia do rosto de Caolho. O único olho que enxergava a realidade, como previra o cineasta, fechou-se para sempre em um clarão de sangue.
Dadá, a mãe que ganhava a vida esfregando o chão da cidade oficial, teve que cavar o próprio chão para enterrar o filho numa vala comum. Sem mármore ou flores, ela usou um pedaço de carvão para riscar na cruz de tábua a sentença final: "Quando lembrares de mim, lembre-se do sorriso que tinha. Era a única arma que tinha contra a dor que sentia". Naquele dia, Marcinho sentiu sua humanidade descer ao solo junto com o caixão do amigo.
Os anos passaram como um trator. Marcinho sobreviveu, mas o brilho nos olhos deu lugar a uma opacidade de vidro fumê. Ele se tornou um homem silencioso, uma sombra que caminhava pelos becos sem mais citar poetas ou cantar Geraldo Babão.
Certa noite, já adulto e endurecido pelo asfalto, ele caminhava por um viaduto no centro da cidade quando seus olhos bateram num grafite desgastado pela chuva. Lá, em letras garrafais e rebeldes, estava escrito: "FELIZ É O CAOLHO QUE ENXERGA A REALIDADE EM UM OLHO SÓ – SGANZERLA".
Marcinho parou. O peito, que ele julgava ser de pedra, deu um solavanco. Por um instante, o cheiro de sabão da roupa de Dadá e o riso de Caolho voltaram com a força de um soco. Ele percebeu que Sganzerla estava certo, mas por um motivo cruel: enxergar a realidade inteira, com os dois olhos abertos, era um fardo pesado demais para um homem que vive no mundo dos esquecidos carregar. Ele encostou a testa no muro frio, fechou os olhos e, pela primeira vez em décadas, permitiu que o samba do Salgueiro ecoasse, bem baixo, no fundo da sua alma devastada. Lembrou do amigo Caolho, do sorriso dele e do samba de Geraldo Babão que eles adoravam cantar descendo a ladeira do Morro do Adeus.
"Morro
Tu és a minha inspiração
Para eu compor a melodia
Dizer tudo que sinto
No meu coração
Juro
Que sou capaz de enlouquecer
Se um dia o Salgueiro desaparecer"...
Para meu irmão Roy (in memoriam), que gostava dessa frase do cineasta Rogério Sganzerla. Roy subia os morros cariocas para ouvir samba de raiz dos compositores esquecidos.
