Obrigado ao silêncio

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 14/02/2026
Horário 05:00

Chegou à cidade um novo pensador, de grande eloquência e sabedoria, digno de nota e até mesmo de grandes congratulações. Inteligentíssimo, poderia dissertar sobre o que quer que seja, dos assuntos mais triviais aos mais complexos. De início, teve garantida, constitucionalmente, a liberdade de expressão, bem como, a do livre pensar. Testou assuntos, provocou reflexões, criticou, esmiuçou verdades e inverdades, semeou a discórdia, enfim, fez seu papel de homens das letras, afiadas como espadas. 
Mas a cidade não parecia preparada para semelhante eloquência. Certos assuntos, não se sabe exatamente por quais motivos, são interditados na nobre cidadela, de maneira que alguns temas se mostram intoleráveis às audiências. De início, não notou semelhante afronta ao pensamento livre e reflexivo, mais tarde, contudo, a censura passou a incomodá-lo, a si e ao seu caráter. Não ofendera ninguém, não disse mentiras, não espalhou descontentamento atacando a honra dos seus cidadãos. Apenas ousou, nessas terras ignóbeis, a dizer o que pensa e sente. Tolhido, censurado, resolveu vingar-se de maneira sutil e sofisticada. 
Deu-se ao disparate de fazer literatura, essa, livre de coerções do mundo real, entregando-se, com isso, ao mundo da pura ficção. Engana-se, contudo, aquele que sonha com palavras irreais, pois entre o dito e não dito, existe todo um mundo à parte do nosso. Pois bem, entre contos e crônicas, passou a dizer tudo o que não se podia. Não notaram, todos os outros, do seu estratagema, e consideravam seus textos inofensivos, incapazes de provocar as temidas reflexões de outrora. 
Bem, o fato é que poucos estavam preparados para compreender a linha tênue que divide a literatura fantástica da crítica social e política e por essa razão, os leitores não podiam compreender que por trás de contos infantis e crônicas sem pé nem cabeça estava o nobre objetivo de fazer pensar. Arma poderosa, a literatura provocativa e imaginária pode salvar vidas e pessoas da ignorância, que crassa, por todos os lados. Uma atrás da outra, as palavras constroem outras realidades tangíveis. 
O expediente era exaustivo, entretanto. O pensador, cansado de criar, quis voltar ao mundo real, abandonar a literatura e voltar à coluna. Não permitiram, pois embora estejamos vivendo em outros tempos, distantes daquele, o passado parece mais uma vez presente. Não se pode falar, a cidade não pode ouvir, os leitores não aceitam e não querem ser contraditos em suas pobres convicções. Entristecido e sem perspectivas, o pensador resolveu mudar de lavra e passou a dedicar-se a afazeres mais nobres, culinários, dessa vez, divulgando, com suas palavras, receitas de quitutes e iguarias. 
Assim, no lugar de sua coluna semanal, o periódico passara a publicar receitas, sempre novas e deliciosas, que não provocavam, como antes, dissabores e inconveniências. Pois bem, anotem os ingredientes e prestem atenção no modo de preparo, pois o prato da semana será incrível aos seus paladares. 
 

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