Os sonhos e a realidade

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 17/04/2026
Horário 07:00

A sala de aula do curso de Jornalismo era um zoológico ideológico, um terrário onde espécimes raros de "revolucionários de apartamento" eram criados em cativeiro, alimentados a café solúvel e xerox malfeitas de Marcuse. O ar fedia a uma mistura insuportável de tabaco de rolo, suor de indignação seletiva e uma prepotência intelectual que só quem nunca teve que entregar uma declaração de Imposto de Renda consegue sustentar.
O tema da noite, como sempre, era a derrubada iminente do "sistema capitalista selvagem". O coro estava ensaiado. De um lado, garotos cujas mãos jamais conheceram o peso do glorioso "Guatambú", como diz meu querido amigo Carlão Pipoli, mas que pareciam carregar o destino do proletariado mundial nas costas, gritavam nomes como se estivessem em um culto: Lenin! Trotsky! Stalin (esse, os mais "moderados" sussurravam)!
— Temos que tomar os meios de produção! — bradava um rapaz com um cachecol vermelho que parecia ter sido tricotado pela própria Vovó Benta da Revolução. — O sangue do trabalhador irriga o jardim da burguesia! É hora de ir para as ruas!
O plano era infalível, traçado entre o DCE e o bar da esquina: a revolução total começaria logo após a entrega do trabalho de Teoria da Comunicação II. O Brasil tremeria diante da fúria daquelas bochechas rosadas e bem nutridas.
No fundo da sala, isolado da histeria coletiva, estava Lê o Garrote. Lê não era "menino". Tinha 30 anos e a cara de quem já tinha visto mais segundas-feiras brabas do que todos aqueles sonhadores juntos veriam em duas encarnações. Com seu diploma de Educação Física já guardado na gaveta da desilusão, Lê estava ali apenas para cumprir tabela, assistir ao circo e, talvez, conseguir um diploma que lhe garantisse um emprego que não envolvesse gritar "bora, mais duas repetições!" para madames na academia.
Sua apatia era uma ofensa. Como alguém ousava não se inflamar diante da promessa de um amanhã socialista? O "garoto do cachecol", percebendo a indiferença pétrea de Lê, resolveu confrontar a anomalia estatística. Aproximou-se com a postura de um comissário do povo prestes a ditar uma sentença, a voz carregada de um desdém que ele achava ser autoridade.
— E o senhor? — cuspiu a palavra "senhor" como se fosse um insulto, um rótulo de "burguês decadente" ou "tiozão do churrasco". — Não vai falar nada? Não tem uma posição diante do massacre do proletariado? O que o senhor sabe sobre a luta?!
Lê o Garrote, que até então estava ocupado mentalmente calculando se o saldo no banco daria para o combo "misto-quente e pingado" da saída, levantou lentamente os olhos. Olhou para o revolucionário de auditório com uma piedade genuína, a mesma que um veterinário sente por um bicho que acabou de ser atropelado.
Lê deu de ombros, um gesto simples que pesava mais que todo o Capital de Marx.
— Eu? — começou Lê, com a voz rouca de quem sabia o preço exato de cada boleto. — Eu tenho 30 anos, meu filho. A única coisa que eu sei é que o jogo aí fora é duro pra c...
O silêncio caiu como uma guilhotina. O "capitalismo selvagem" não precisou mover um dedo. A "luta de classes" foi nocauteada por uma frase de dez palavras. O Garrote, com a sabedoria cínica dos 30 anos, tinha acabado de dar a aula mais importante que aqueles meninos jamais teriam: a revolução é linda no papel, mas no mundo real, ela geralmente cobra 10% de taxa de serviço e não aceita cartão de crédito.
Em homenagem ao querido amigo Juarez Gomes de Oliveira (in memoriam), o Lê o Garrote. Que, onde quer que esteja, o jogo seja um pouco menos duro.
 

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