Paralelas

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 10/07/2026
Horário 06:03

O relógio bate 16h20 e a ansiedade já caminha mais rápido que os meus passos. Saio de casa com o coração ligeiro, levando comigo o acontecimento que ainda aquece: o Brasil saiu da Copa do Mundo,  o último romântico, o último fora de série, sente que nada é para sempre. Há uma magia única no futebol — algo que devolve autoestima e esperança aos países que o mundo insiste em deixar esquecidos. Veja Cabo Verde, um território minúsculo de apenas 530 mil almas, que ergueu a cabeça e enfrentou a poderosa Argentina sem medo de ser feliz. Deu orgulho não só ao seu povo heroico, mas ao mundo inteiro. E o goleiro Vozinha? Saiu dali como um gigante, herói feito de garra e fé. A vida segue, sim, e o esporte ensina isso melhor do que qualquer lição.
Abro o portão com o controle remoto e ele desliza devagar, como se respeitasse a calmaria do fim de tarde. Vou caminhando sob a luz do sol — dourada, suave — que daqui a algumas horas vai se deitar na linha do horizonte, pintando o céu de cores que nenhuma palavra consegue copiar. Moro a apenas três quadras do Tênis Clube, e cada passo parece levar mais longe do ruído e mais perto do que faz bem.
Chego lá e a cena se abre como uma pintura: um ajuntamento de pessoas, adultos e crianças, pais e mães dividindo pipoca, trocando figurinhas no calor da conversa, todos em volta da banca de jornal que fica bem em frente ao clube. Cheiros, risos, a alegria simples que mora nos pequenos encontros.
Sento-me sozinho em um banco de concreto, esperando que chegue as 17h — a hora marcada para a sauna. Lá me espera o amigo Ceará, homem de mil utilidades, que cuida daquele espaço como se fosse o próprio lar: limpo, acolhedor, guardado com carinho. E o amigo Lambança, que com certeza vai demonstrar sua habitual generosidade.
Nesse intervalo de solidão doce, no estalo desse silêncio preenchido, o pensamento viaja e encontra as linhas que cruzam a minha existência. É aqui que a geometria exata dos homens se curva diante da poesia do destino.
O que são, afinal, as paralelas?
Na matemática fria, são linhas que caminham lado a lado, na mesma direção, mas que estão condenadas a nunca se tocar. Na filosofia da vida, contudo, as paralelas são os nossos afetos, as nossas memórias e os nossos amigos. Caminhamos na mesma direção do tempo, sob o mesmo sol que se põe, existindo sintonizados na mesma frequência de amor, mesmo que a matéria, a distância ou a própria finitude nos impeçam o toque físico. São retas que não se cruzam no espaço, mas que se fundem na eternidade do sentir.
Marcos Ferro está agora na Riviera de São Lourenço ao lado do amigo Moacir, um torcedor colorado doente de paixão, e me envia fotos daquele pedaço de paraíso. Convidou-me para ir. A mansão tem cinco suítes, um palácio dos sonhos onde eles agora desfrutam de um delicioso churrasco. Marcos é daqueles amigos raros — querido, sempre atento, sempre gentil. Mesmo à distância, correndo em sua própria linha paralela, ele manda fotos que representam sua felicidade. A Dra. Cristina, sua Primeira Dama, sempre presente. 
Para preencher o vazio desse banco, vem o desejo: ouvir Milonga del Ángel, de Astor Piazzolla. Uma obra-prima tecida por esse gênio do bandoneón. A melodia lírica, profunda, como um rio que corre devagar, traz-me saudades dos meus dois irmãos queridos, Teco e Roy, que já não caminham mais por este mundo. Eles partiram para uma dimensão intangível, mas a música faz com que suas linhas paralelas, por alguns instantes, curvem-se no infinito para caminhar novamente ao meu lado.
Lembro-me, então, da lírica canção de Belchior, Paralelas, que na bela e melancólica interpretação da cantora Vanusa, em 1975, ganhou os corações e mentes do país. Começo a cantarolar os versos mentalmente, sentindo o peso de cada palavra:
"No Corcovado quem abre os braços sou eu/ Copacabana essa semana o mar sou eu/ como é perversa a juventude do meu coração/ que só entende o que é cruel, o que é paixão..."
As paralelas nos caminhos da vida apresentam múltiplas escolhas. Lembro do querido amigo Tiago, que também adora Belchior e gravo esses versos no WhatsApp e mando para ele. A resposta vem quase imediata, precisa e poética: "Estamos prontos... e agora tudo que eu posso te dar é: Solidão com vista pro mar..."
O Alemão, que mora sozinho na Barra do Una, no belo litoral paulista. Sempre gostou de praia, desde a nossa bela juventude, e já desbravava aquele litoral norte nos idos anos 70. Outra linha paralela, banhada a sal e calmaria.
Aproveito o lampejo de afeto e mando uma mensagem ao grupo da família: hoje é o aniversário da minha irmã Cássia. “Que a vida lhe traga sabedoria, irmã querida.” Ela mora nos Estados Unidos há mais de trinta anos, junto com a nossa outra irmã, Mariza. A distância — essa medida que os homens inventaram para contar estradas e fusos horários — nunca terá o poder de diminuir o amor que nos une. Esse laço não tem quilômetros, não tem tempo, não tem fim. É a paralela perfeita: estamos distantes no mapa, mas absolutamente colados na alma.
O sol continua sua descida lenta, as figurinhas continuam sendo trocadas na banca, a Copa do Mundo continua na boca do povo, e a vida segue seu curso inabalável: feita de esperança, memórias, saudades e o amor que nunca se esconde.
Vou desfrutando da minha poética solidão aqui sentado, escutando agora Soledad, também de Astor Piazzolla, olhando a estrutura imponente do belo Tênis Clube. Enquanto isso, na Riviera, o churrasco ferve e as risadas ecoam.
Uma expressão reflexiva me vem à mente, imensa como o entardecer:
"Tudo passa nessa vida, menos os rios e as montanhas."
Essa máxima antiga aborda a impermanência da vida humana em contraste com a perenidade dos elementos naturais. Nós somos efêmeros, os dias correm céleres, os impérios caem e as Copas do Mundo terminam. Mas ela também evoca algo maior: mesmo diante da transformação e da nossa partida, a essência humana e as vivências deixam um legado duradouro. Nós passamos, mas o amor que distribuímos fica impresso no tecido do universo, tão firme quanto uma montanha, tão fluido quanto um rio.
E as paralelas da vida continuam seu curso aparente — sem lógica, sem precisão matemática, desafiando a própria geometria. E a música, em seu mistério sagrado, vai me levando suavemente para o infinito, onde todas as linhas, finalmente, se encontram.
 

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