Pare de complicar

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 16/06/2026
Horário 06:00

A primeira vez que fui promovido na carreira como jornalista não foi exatamente por uma habilidade técnica da área, como escrever bem ou fazer uma boa entrevista. Foi simplesmente por gostar de jogar como goleiro nos rachões da empresa. 

Explico: em pouco menos de seis meses saí de produtor de pautas na TV para coordenador de produção jornalística porque o meu chefe da época ficou impressionado em como eu organizava a equipe e minha zaga e quase sempre ganhava os jogos com isso. O que ele me disse foi mais ou menos assim: “Mancuzo, você motiva o time, não deixa ninguém sem marcar, incentiva quando certam e consola quando erram. Quero isso na redação e por isso vou te promover”. Eu nem fazia ideia desta competência, mas óbvio que aceitei e toquei o barco, crescendo depois ainda mais. 

Ou seja, moral da historinha: a vida no trabalho é mais simples do que a gente pensa.

Não muito raro, eu ouço de alunos recém-formados que o maior problema para se conseguir um emprego hoje em dia é a tal da “experiência na área”. E a alegação é quase um mantra “Como vou ter experiência se eu nunca trabalhei?”

Eu não vejo esta questão como algo exclusivo da geração Z, até porque eu mesmo passei por isso, falei e ouvi e a mesma frase dos meus amigos de sala. A questão que eu penso é que de fato houve uma transformação muito grande em relação à forma como as gerações chegavam e chegam ao mercado de trabalho. 

Eu saí da faculdade empregado, consegui emplacar meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) direto em uma emissora de TV por assinatura. Fiquei lá por quase um ano e depois veio a primeira entrevista no jornalismo diário e o resto é história. 

Mas antes mesmo que alguém diga que fui privilegiado eu já adianto que “sair empregado” da universidade não aconteceu por mágica e sim por uma simples constatação minha de que se eu não me mexesse, nada aconteceria. 

E aí talvez seja um problema geracional e até diria simplório: quando me formei, não tinha esta imensidão de informações e ilusões que o mundo digital impõe aos recém-formados de hoje. Em minha mente só havia uma situação: sair da universidade e arrumar um emprego e depois disso, crescer naturalmente, assim como todos. 

Bem diferente da loucura que passa pela cabeça de muitos dos jovens profissionais de hoje em dia: querem ser influenciadores digitais sem ter o que influenciar; ter 50 mil seguidores antes de aprender a escrever um parágrafo coerente; lançar um podcast e já estar na Spotify House; trabalhar de casa, mas não querem acordar cedo; salário de sênior com currículo de estagiário; ser CEO aos 25, mas sem passar pela humilhação de levar um "não" no telefone. Enfim, querem ter a liberdade de um nômade digital, terem tudo. Só não querem o principal: começar de baixo, errar, aprender, errar de novo, levantar, suar a camisa, ouvir "não" até que um dia alguém diga "sim". 

O digital vende a ilusão de que é possível pular a fila. E muitos compram a oferta, para depois ficarem presos nesse limbo de quem tem 47 abas abertas no navegador e nenhuma ação concluída. Fico com pena de quem vomita arrogância digital sem ao menos ter tido a decência de comer um pouco de poeira do mundo físico.

Bora fazer o básico, cumprir sua função para alguém enxergar seu potencial? Simples assim? 
 

Publicidade

Veja também