A “febre” por História, que Nietzsche apontou como verdadeira doença do seu tempo, na sua segunda consideração intempestiva (1874) conhece um recrudescimento sem paralelo nas primeiras décadas do século XXI, revelando, mais de 150 anos depois, que o caráter extemporâneo das reflexões do filósofo de fato parecem pertencer muito ao nosso tempo do que o dele. É preciso concordar, portanto, com muitas das “utilidades”, mas também das “desvantagens” da História para a vida, sobretudo, para a vida pública nesse início do século XXI.
A ascensão da História pública no cenário internacional, desde a década de 1970, mostra-se reveladora dessa “febre” por História em nossa contemporaneidade, bem como evidenciam um forte interesse pelo passado que colocam a necessidade de reflexão em torno das relações entre passado, história e público, em um amplo movimento acadêmico e social de autorreflexividade em torno dessas esferas. Ao mesmo tempo, observa-se nesse contexto a ascensão de novas reflexões teóricas em torno do tempo e das temporalidades no campo da Teoria e da Filosofia da História, que assinalam a ascensão de uma nova metafísica do tempo.
Dentre as tendências observáveis nos estudos sobre o tempo e a temporalidade, chamamos a atenção para o (paradigma) da presença, que busca compreender como podemos “vivenciar e representar a característica aporética do passado que está presente em seus remanescentes (objetos, documentos ou memórias) e ao mesmo tempo, ausente por estar irremediavelmente perdido, por ser passado”. Dentro dos estudos da presença, destacamos as reflexões em torno da presença material do passado, da presença do passado como espacialização do tempo e da experiência humana fora e dentro da linguagem, bem como, da presença de espectros do passado que assombram o presente que trazem no seu bojo questões ético políticas em torno de questões de justiça e injustiça históricas.
Nesse sentido, procura-se estabelecer vinculações teóricas entre a História pública e o (paradigma) da presença do passado, por entender que a ascensão pública e acadêmica da História pública é parte integrante de uma crescente “febre” histórica indicativa de amplos aspectos dessa presença do passado na contemporaneidade denotativa da crise da “passeidade historicista do passado”, por um lado, e por outro, por indicar novas possibilidades de reflexões epistemológicas sobre o fazer metodológico da História pública enquanto uma investigação em torno da presença do passado no mundo contemporâneo, possibilitando novas elucubrações sobre as “utilidades” e “desvantagens” da História para a vida pública no século XXI.
Nesse escopo, pergunto ao leitor, quais relações você mantém com o passado? De que forma a História é, ou não, parte integrante da sua vida cotidiana? De que forma o passado e a História contribuem para que você possa compreender a si mesmo e a sociedade à sua volta? Seria o passado e a História relevantes, também para sua vida?