Por que o Brasil teme Paulo Freire

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 12/02/2026
Horário 05:00

Há algo curioso — e, talvez, profundamente revelador — no Brasil contemporâneo: enquanto universidades do mundo inteiro reverenciam Paulo Freire como um dos maiores educadores do século XX, aqui ele é tratado por alguns como vilão, símbolo de tudo o que “deu errado” na educação nacional.
Afinal, por que o Brasil teme tanto o seu próprio pensador mais reconhecido?
A resposta está menos em Freire e mais no país que o rejeita. Freire é perigoso não porque ensina “ideologia”, mas porque ensina a pensar. E num país que, historicamente, preferiu o povo obediente ao povo consciente, pensar é um ato subversivo. Paulo Freire não pregava doutrinação — pregava libertação.
Sua pedagogia nasceu do contato com camponeses, operários e analfabetos, e partia da ideia simples, porém revolucionária, de que ensinar é um ato político.
Político, não partidário: político no sentido de reconhecer que toda educação forma uma visão de mundo.
Ou forma cidadãos críticos, ou forma indivíduos submissos. Freire escolheu a primeira opção — e por isso foi temido.
Durante a Ditadura Militar, em 1964, Freire foi preso e depois exilado. Seus programas de alfabetização de adultos, que em poucas semanas ensinavam o trabalhador a ler e escrever, foram vistos como ameaça. O medo não era das palavras, mas das perguntas.
Porque quem aprende a ler o mundo começa a perceber que a miséria e a injustiça não são naturais, são fabricadas. E quem descobre isso se torna, inevitavelmente, um cidadão.
Ao longo das décadas, Paulo Freire foi transformado em espantalho político. Setores conservadores, sem jamais tê-lo lido, passaram a usá-lo como símbolo de “doutrinação marxista” ou “ideologia de gênero”. Nada mais distante da verdade. Sua pedagogia é profundamente humanista, cristã e ética. 
Freire cita o Evangelho, Santo Agostinho, Erich Fromm e Simone de Beauvoir — muito mais que Karl Marx.
O que ele propõe é uma escola do diálogo, do respeito e da esperança.
Mas essa escola assusta. Ela desafia o modelo autoritário, que ainda resiste em muitas salas de aula e cabeças.
Ela tira o professor do pedestal e convida o aluno a participar. Ela transforma a alfabetização em consciência — e a consciência, em poder.
Por isso, Paulo Freire é odiado: porque ele revela o poder libertador da educação. Num país que, desde a Colônia, sempre tratou o saber como privilégio de poucos, sua pedagogia é uma ameaça à ordem estabelecida.
As elites brasileiras, historicamente, nunca quiseram um povo que pensasse — quiseram um povo que obedecesse.
Freire inverte essa lógica. Ele não aceita o “para o povo, qualquer coisa está bom”. Ele diz que o povo tem direito a tudo: ao saber, à palavra e à dignidade.
O paradoxo é gritante: no mundo, Paulo Freire é referência; no Brasil, é caricatura. É o terceiro autor mais citado do planeta em Ciências Humanas, segundo o Google Scholar. É doutor honoris causa por mais de 40 universidades. É estudado em Harvard, Oxford e Cambridge. E, no entanto, em sua própria terra, é alvo de memes e desinformação.
Talvez porque o Brasil ainda não esteja pronto para aceitar a ideia mais radical de Freire: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”
Ele acreditava na força do diálogo, da escuta, da empatia. E isso é mais revolucionário do que qualquer bandeira partidária.
Paulo Freire incomoda porque continua atual. Porque, enquanto houver injustiça, desigualdade e silêncio, a pedagogia da libertação continuará ecoando como denúncia e esperança.
O Brasil o teme porque ele nos obriga a olhar no espelho — e ver que a ignorância coletiva é um projeto, não um acaso.
Talvez o dia em que o país parar de odiar Paulo Freire seja o mesmo em que, finalmente, comece a compreendê-lo.
 

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