Por que tanta gente abandona o tratamento da apneia do sono?

OPINIÃO - Priscila Kalil Morelhão

Data 26/02/2026
Horário 05:00

Receber o diagnóstico de apneia do sono costuma trazer alívio. Alívio para quem convive com o paciente e, principalmente, para o próprio paciente, que finalmente encontra uma explicação para anos de cansaço, sono não reparador, irritabilidade e dificuldade de concentração. Mas o diagnóstico não encerra a história, ele marca o início do cuidado.
A apneia do sono é uma doença crônica e, por isso, exige cuidado contínuo. Ainda assim, estudos mostram que uma parcela significativa dos pacientes abandona o tratamento ao longo do primeiro ano. E isso não acontece por falta de necessidade, mas por dificuldades no processo de adaptação.
O principal tratamento para casos moderados e graves é o CPAP, aparelho que mantém as vias respiratórias abertas durante o sono por meio de pressão positiva contínua. Quando bem utilizado, ele melhora a qualidade de sono, reduz o ronco, diminui riscos cardiovasculares e melhora a disposição diurna. O problema é que, para muitos pacientes, o início não é simples.
Desconforto com a máscara, vazamentos de ar, ressecamento nasal, sensação de sufocamento ou claustrofobia estão entre as queixas mais comuns. Além disso, muitos pacientes recebem o aparelho, mas não recebem acompanhamento adequado. Sem orientação, qualquer dificuldade pode se transformar em motivo para desistir.
O início do uso do CPAP é um processo, e não um momento isolado. Aprender a dormir com o aparelho faz parte essencial do sucesso do tratamento e depende de ajustes, orientação e acompanhamento. Assim como óculos precisam de ajuste e próteses exigem adaptação, o CPAP também precisa ser personalizado. Cada rosto, cada respiração e cada rotina de sono são diferentes.
Com acompanhamento e ajustes adequados, a maioria das dificuldades pode ser resolvida. O paciente deixa de apenas suportar o aparelho e passa a confiar no tratamento. Para muitos, o CPAP deixa de ser um incômodo e passa a ser um aliado, à medida que surgem os benefícios de acordar com mais disposição, melhor humor e mais energia. Abandonar o tratamento não significa apenas voltar a roncar. Significa manter o risco aumentado para hipertensão, infarto, AVC, alterações de memória, humor e produtividade. Ou seja, não tratar a apneia é permitir que o corpo continue dormindo sem realmente descansar.
Por isso, o sucesso do tratamento não está apenas no aparelho, mas no cuidado ao longo do tempo. Tratar a apneia do sono é um processo, não um evento. E quando esse processo é bem conduzido, o resultado não é apenas dormir melhor, mas viver melhor.
 

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