Cheguei a Madrid em uma noite de junho. Eram quase 11 horas quando saí do terminal rodoviário. O termômetro marcava cerca de 30°C, mas a sensação era de que a cidade inteira ainda devolvia o calor acumulado durante o dia.
Enquanto caminhava até a hospedagem, comecei a imaginar outra cidade. Uma cidade em que as árvores tivessem chegado antes do asfalto. Em que os rios continuassem correndo onde sempre correram. Em que a sombra fosse tratada como infraestrutura. Em que uma praça tivesse tanto valor quanto um estacionamento. Em que caminhar fosse mais importante do que atravessar a cidade o mais rápido possível.
Talvez essa cidade nunca tenha existido. Mas imaginá-la ajuda a compreender melhor a cidade que construímos.
Em que momento passamos a acreditar que uma cidade precisava crescer mais depressa do que podia respirar?
Boa parte das cidades que conhecemos foi produzida acompanhando a industrialização, a expansão das ferrovias, a circulação de mercadorias, a valorização da terra e, mais tarde, a consolidação do automóvel como principal referência da mobilidade urbana. A natureza não desapareceu das cidades por acaso. Ela foi sendo deslocada para abrir espaço a outras prioridades.
Hoje, essas escolhas reaparecem quando o clima deixa de seguir os padrões para os quais essas cidades foram planejadas.
Na Europa, uma onda de calor levou diferentes países a emitirem alertas vermelhos, alterarem o funcionamento de escolas, cancelarem festas tradicionais e reorganizarem serviços públicos diante de temperaturas superiores a 40°C em diversas regiões.
No Brasil, a realidade é outra. Chuvas intensas, enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e de frio passaram a fazer parte do cotidiano de cidades que, durante décadas, foram pensadas para um clima mais previsível.
Talvez devêssemos perguntar para qual clima nossas cidades foram construídas.
Quando um bairro possui poucas árvores, isso não é apenas uma característica da paisagem. É resultado de decisões. Da mesma forma, um rio canalizado, uma avenida que ocupa o lugar de um córrego, um loteamento construído sobre uma várzea ou uma praça preservada também contam escolhas feitas ao longo do tempo.
As cidades contam essas histórias o tempo todo. Basta aprender a lê-las.
O calor que encontrei em Madrid não tornou a Europa parecida com o Brasil. As diferenças continuam enormes. A infraestrutura, a história urbana, a organização do território e as condições de vida permanecem muito distintas.
Mas caminhar por uma cidade que não conseguia esfriar fez surgir uma pergunta que atravessa continentes.
E se o futuro das cidades não dependesse apenas de construir mais?
E se dependesse, antes de tudo, de reaprender a habitar os territórios respeitando os limites da natureza?
Talvez seja justamente esse o deslocamento que Ailton Krenak nos convida a fazer quando questiona a ideia de que a humanidade existe separada do mundo natural. Não se trata apenas de encontrar soluções tecnológicas para a crise climática. Trata-se de reconhecer que rios, árvores, montanhas e pessoas nunca fizeram parte de mundos diferentes.
Talvez adiar o fim do mundo comece menos com a pergunta sobre como fazer as cidades crescerem e mais com outra, muito mais simples e talvez mais difícil de responder:
Como queremos viver nelas?