Em pleno século XXI, quando o Brasil enfrenta recordes de feminicídio, ouvimos de um líder religioso extremamente carismático — seguido por milhares nas redes — a seguinte afirmação: “A mulher nasceu para auxiliar o homem. O empoderamento é ideologia diabólica.”
É preciso dizer com todas as letras: discursos como esse não são apenas antiquados. Eles são perigosos. E, pior ainda, são história repetida da violência contra a mulher.
Quando uma autoridade espiritual declara que “o homem foi feito para liderar” e que a mulher, ao buscar autonomia, cede ao “desejo de poder”, ele não está fazendo teologia; está reproduzindo a matriz cultural que há milênios legitima a dominação masculina.
É exatamente essa hierarquia — homem sujeito, mulher auxiliar — que sustentou séculos de submissão, silenciamento, agressões e assassinatos agora reconhecidos pelo nome correto: feminicídios.
Toda violência começa muito antes do golpe, do tiro ou da faca. Ela começa quando alguém com prestígio moral diz que a mulher deve ocupar um lugar menor, que querer mais é rebeldia e que autonomia é pecado. Demonizar o “empoderamento” feminino, vindo de quem veio, não é retórica inocente: é licença cultural para que homens inseguros reajam com violência à liberdade das mulheres.
A história mostra que onde a mulher é tratada como extensão do homem, ela morre mais. E quando a religião — que deveria proteger, elevar e pacificar — reforça a lógica da posse, da dependência e da obediência, ela deixa de ser caminho espiritual e passa a ser ferramenta de opressão.
Discursos assim acendem o pior no imaginário masculino: a ideia primitiva de que autonomia feminina é afronta. É desse ressentimento — amplificado hoje pelas redes sociais — que nasce o efeito backlash: a reação violenta de homens incapazes de aceitar que mulheres são sujeitos, e não funções de sua existência.
A fé genuína não submete. Não apequena. Não retira dignidade.
Um líder religioso que reduz mulheres a papel auxiliar e chama sua emancipação de “ideologia diabólica” não está defendendo valores espirituais: está reeditando a justificativa mais antiga da violência de gênero.
Numa sociedade que enterra uma mulher a cada duas horas, palavras como essas não são opinião. São risco social. São combustível. São parte do problema.
E precisam ser denunciadas — sempre.