Quando Claudio tornou-se profeta

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 04/04/2026
Horário 10:03

Quando Claudio, que mais tarde passaria a ser conhecido como Claudio, o Profeta, era ainda um adolescente de seus 16 anos, e suas habilidades denotadas pelo adjetivo que lhe deram ainda não se manifestavam de todo, pequenos lampejos dessa incrível e inusitada capacidade de prever os acontecimentos de sua própria existência apareciam, sutilmente, nos detalhes de seu dia a dia. Saber a data da própria morte, situação que o alçou à fama nas redondezas, era apenas o fato derradeiro de uma série de manifestações de caráter inexplicável na sua existência. 
Pois bem, aos 16 anos, Claudio notara que sua vida não teria grandes sobressaltos, melhor dizendo, não haveria, por assim dizer, mudanças bruscas em uma trajetória que lhe parecia dada. Teria, como muitos, um emprego que garantiria uma sobrevivência modesta, sem grandes luxos, prazeres e experiências plenas de sentido. Talvez uma esposa e filhos, que chegariam em sua vida, assim, naturalmente. Ao notar semelhante destino, pensou que o ideal seria mesmo não se propor a fazer muitas coisas, de maneira a lhe poupar esforços, para ele, desnecessários. Terei uma vida a mais simples possível, aventou para si mesmo. ]
Munido dessa concepção da vida e da existência, abandonou a escola de modo a se dar ao luxo de não mais estudar e projetar uma vida profissional. Permanecendo em casa todos os dias, sem afazeres, sua presença passara a gerar incômodos, indizíveis, aos seus pais, que não se conformavam com o caminho por ele tomado, muito menos, com suas justificativas. Arrumaram-lhe um trabalho. Para que tivesse “lições da vida” como então disse seu estimado pai, foi empregado na lavoura, na nobre e extenuante atividade de semear a terra. Nisso dispendeu bons anos, entregando seu ordenado aos pais, com regularidade. 
Com 20 e poucos anos, por ironia do destino, como previsto pelo próprio, Claudio voltava do trabalho de bicicleta, quando, ao atravessar a rua, por pouco não atropelou a garota que distraidamente atravessava a rua. Desviou bruscamente, indo ao chão. Acolhido pela jovem, não pode, naquela situação, senão apaixonar-se, perdidamente, dali em diante. Sentimento correspondido, as tratativas para um casamento arranjado deram-se conforme o costume, sem esforços de parte a parte. Curiosamente, sua futura esposa tinha princípios existências parecidos com os de Claudio, de modo que não resistiu às decisões impostas pelas famílias, tornando-se, como dito, esposa de Claudio. 
Certamente que essa correlação de princípios existenciais aproximou, nos sentimentos comuns, o jovem casal. Da mesma forma, digamos, natural, vieram os filhos, a vida em família e os demais afazeres da vida doméstica, que ambos, encaravam com naturalidade e pouco ou nenhum questionamento. Não foram felizes, contudo, em parte pelas contínuas previsões que Claudio realizava, que de certa forma, o desestimulavam a viver a vida de todos. Conhecer em pormenores seu destino tirava-lhe, contudo, o entusiasmo pela vida. Não compreendia, claramente, a tudo isso, e apenas quando teve a visão do dia de sua morte pode então compreender as razões daquela existencial impassível. 

 

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