Quando o brilho não precisa de barulho

EDITORIAL -

Data 07/05/2026
Horário 04:15

A promulgação da Lei nº 11.938/2026 pela Prefeitura de Presidente Prudente representa mais do que uma simples regulamentação sobre o uso de fogos de artifício: trata-se de um marco simbólico na construção de uma convivência urbana mais empática e consciente. Ao proibir fogos com estampido — responsáveis por ruídos de alta intensidade — o município se alinha a uma tendência crescente de cidades que buscam equilibrar tradição festiva com responsabilidade social.
A iniciativa reconhece um problema historicamente negligenciado: o impacto do barulho extremo sobre populações vulneráveis. Crianças dentro do espectro autista, por exemplo, frequentemente enfrentam hipersensibilidade auditiva. Para elas, o que muitos consideram celebração pode se traduzir em sofrimento profundo, crises de ansiedade e desorientação. A lei, nesse sentido, não apenas regula comportamentos, mas amplia o conceito de inclusão.
O mesmo raciocínio se estende aos animais. Cães e gatos, dotados de audição muito mais aguçada que a humana, são vítimas recorrentes de episódios de pânico durante queimas de fogos. Fugas, acidentes e até mortes são consequências documentadas desse tipo de prática. Ao restringir os estampidos, a legislação reconhece que o bem-estar animal também deve integrar o debate público.
Naturalmente, há quem veja na medida uma interferência em tradições culturais e celebrações populares. No entanto, a lei não proíbe os fogos em sua totalidade — apenas aqueles com efeitos sonoros intensos. Permanecem permitidos os artefatos visuais ou de baixo ruído, o que demonstra uma tentativa de conciliação entre o direito à celebração e o dever de respeito ao próximo.
Outro ponto relevante é o caráter pedagógico da norma. As multas — que podem chegar a mais de R$ 10 mil para empresas — funcionam como instrumento de dissuasão, mas também sinalizam a seriedade com que o tema é tratado. Mais do que punir, a legislação busca transformar comportamentos e sensibilizar a população.
Ao classificar a medida como “um gesto de empatia e responsabilidade coletiva”, a Prefeitura acerta ao destacar o valor simbólico da lei. Em tempos de crescente urbanização e diversidade social, políticas públicas que promovem o respeito às diferenças não são apenas desejáveis: são necessárias. Presidente Prudente, ao adotar essa postura, envia uma mensagem clara: o progresso de uma cidade não se mede apenas por obras e números, mas pela capacidade de cuidar de seus cidadãos — todos eles.

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