Quando o “não” feminino precisa ser esmagado

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 12/03/2026
Horário 04:30

O estupro coletivo ocorrido recentemente no Rio de Janeiro não choca apenas pela violência brutal contra uma adolescente. O que realmente assombra é o que veio depois. Imagens mostram os envolvidos comemorando o crime dentro do elevador do prédio onde a violência ocorreu. Em outro episódio recente, um homem agrediu brutalmente uma recepcionista de hotel após ela recusar um beijo. Ao mesmo tempo, uma onda de vídeos circulou nas redes sociais simulando reações violentas de homens quando uma mulher diz “não”.
Os episódios parecem distintos, mas possuem um elemento comum profundamente inquietante: a incapacidade de aceitar a recusa feminina.
A civilização moderna ensinou as mulheres a dizer “não”. Durante séculos, essa possibilidade praticamente não existia. O casamento era imposto, a autonomia feminina era limitada e a vontade masculina prevalecia. A liberdade feminina de escolher, recusar ou romper relações é um fenômeno historicamente recente.
Mas enquanto as mulheres mudaram, muitos homens parecem não ter mudado na mesma velocidade. Em vários episódios recentes, o que desencadeia a violência é justamente a recusa. A mulher diz não — ao beijo, ao relacionamento, ao sexo — e essa negativa é percebida por alguns homens como humilhação intolerável. O que deveria ser um limite natural da convivência humana passa a ser interpretado como afronta pessoal.
É nesse ponto que o comportamento deixa de ser civilizado e regressa a padrões que a humanidade deveria ter superado há séculos.
Durante muito tempo, tentou-se explicar crimes contra mulheres como explosões passionais. O jurista Nelson Hungria já denunciava essa falácia nos anos 1950. O chamado “crime passional”, dizia ele, raramente é fruto de amor ou de impulso incontrolável. Trata-se, na verdade, de ressentimento, orgulho ferido e desejo de punição.
A realidade contemporânea confirma sua análise. Essa violência contra a mulher não surge de impulso. Ela nasce de planejamento. No episódio do estupro coletivo no Rio, a investigação aponta que um dos jovens teria sido responsável por atrair a vítima ao local onde ocorreu o crime. Não houve apenas brutalidade. Houve armadilha.
Mas há algo ainda mais perturbador nesse caso. Ao planejar atrair uma jovem para um ambiente onde vários homens já a aguardavam, o agressor certamente sabia que dificilmente haveria consentimento. O “não” da vítima não era uma possibilidade remota. Era praticamente uma certeza. E, ainda assim, o crime foi planejado.
Isso revela algo essencial: o objetivo não era conquistar. Era submeter. A recusa feminina não foi o gatilho da violência — ela foi o alvo. O plano já pressupunha que a vontade da vítima seria anulada. A violência sexual, nesse contexto, transforma-se em instrumento de domínio coletivo. A mulher deixa de ser vista como pessoa e passa a ser tratada como objeto sobre o qual o grupo exercerá poder.
Nesse momento, a frustração masculina deixa de ser apenas emoção. Ela se transforma em projeto de destruição.
É impossível ignorar também o papel das redes sociais nesse ambiente. A recente “trend” em que jovens simulavam agredir ou matar mulheres quando ouvem um “não” mostra como a violência pode ser banalizada e transformada em espetáculo. Quando a agressão vira “humor”, a cultura começa a legitimar aquilo que deveria repelir.
Outro aspecto que chama atenção é que muitos desses crimes envolvem jovens de classes médias ou altas. Isso desmonta a narrativa confortável de que a violência contra a mulher seria fruto apenas de pobreza ou marginalidade. O problema é mais profundo. Ele atravessa classes sociais e revela falhas na formação moral e emocional de muitos homens.
Civilização não é apenas avanço tecnológico. É, sobretudo, capacidade de domesticar os impulsos mais primitivos do ser humano.
Ao longo dos séculos, a humanidade construiu códigos morais, religiões, sistemas jurídicos e instituições justamente para conter aquilo que existe de mais bruto dentro de nós. A cultura é o que impede que o instinto domine a convivência humana.
Quando homens respondem à frustração com violência, algo essencial nesse processo civilizatório falhou.
É preciso estar profundamente desprovido de limites éticos para reagir à rejeição com agressão. É preciso regredir muitos degraus na longa escada da civilização para tratar mulheres como presas e não como pessoas.
No fundo, esses episódios revelam também uma crise de maturidade masculina. Muitos homens não foram educados para lidar com frustração, rejeição ou perda de controle. Foram ensinados a competir, conquistar e dominar, mas não a aceitar limites. E a vida adulta é feita justamente disso: de limites.
Desejo não gera direito. Rejeição não é humilhação. E mulher não é propriedade.
A tecnologia avançou de forma extraordinária. A ciência explora o espaço. A comunicação conecta o planeta em segundos. Mas episódios como esses lembram uma verdade incômoda: a civilização pode avançar rapidamente por fora e permanecer perigosamente primitiva por dentro.
E quando homens planejam esmagar o “não” de uma mulher, não estamos apenas diante de um crime — estamos diante de um retrocesso brutal na própria ideia de humanidade. Ali não age o humano civilizado, mas a velha besta primitiva que ainda habita o homem — agora munida de raciocínio.
 

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