Quando reajustar não basta

OPINIÃO - Walter Roque Gonçalves

Data 03/05/2026
Horário 04:30

Quando o custo sobe, muitos empresários imaginam que a solução natural é reajustar preços. Na teoria, parece simples: comprou mais caro, vende mais caro. Na prática, porém, quem determina até onde o preço pode chegar não é apenas a planilha da empresa, mas a lei da oferta e da demanda. Se o consumidor encontra alternativas, reduz o consumo, troca de fornecedor ou adia a compra, o reajuste deixa de ser uma decisão interna e passa a ser limitado pelo mercado.
Pesquisa da Serasa Experian, divulgada em abril de 2026, confirma a dificuldade das empresas em preservar margens diante da alta dos custos. Segundo o levantamento, as principais pressões vieram de matéria-prima e insumos, folha de pagamento, tributos e aluguel. O reflexo mais preocupante aparece na lucratividade: quase metade das empresas informou queda nos resultados, justamente pela dificuldade de repassar integralmente esses aumentos ao consumidor final.
Esse dado revela um ponto essencial da gestão: custo não vira preço automaticamente. A empresa pode calcular quanto precisaria cobrar para manter sua margem, mas isso não significa que o mercado aceitará pagar. Quando há concorrência forte, excesso de oferta ou consumidor pressionado, o poder de repasse diminui. Já quando há diferenciação, marca forte, conveniência ou maior percepção de valor, a empresa ganha mais espaço para sustentar preços melhores.
Por isso, reajuste não pode ser tratado apenas como reação ao aumento dos boletos. É preciso compreender o comportamento do cliente, a força dos concorrentes, a elasticidade da demanda e a real margem de cada produto ou serviço. Muitas empresas vendem mais e lucram menos porque preservam volume, mas sacrificam margem. Outras mantêm preços congelados por medo de perder clientes e acabam consumindo o próprio caixa.
O empresário fica diante de dois riscos: reajustar e perder venda, ou não reajustar e perder margem. Nenhuma decisão deve ser tomada no impulso. A resposta exige cálculo, leitura de mercado e eficiência operacional. Se o mercado não aceita todo o repasse, a empresa precisa encontrar alternativas: reduzir desperdícios, revisar processos, negociar melhor com fornecedores, ajustar mix de produtos, controlar inadimplência e proteger o capital de giro.
No fim, reajustar preços não é apenas uma conta matemática, mas uma decisão estratégica. A empresa precisa saber até onde o mercado aceita pagar, onde pode reduzir perdas internas e quais produtos realmente sustentam sua margem. Em tempos de custos elevados e consumidor mais seletivo, a pergunta que fica é: sua empresa controla o preço ou apenas reage ao custo?
 

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