Antes mesmo das panelas começarem a ferver, o cheiro da lenha queimando já promete transportar os visitantes para outro tempo. Um tempo de estradas de terra, boiadas cortando o interior e peões reunidos ao redor do fogo improvisado na beira do caminho.
É esse cenário que a ExpoAgro Anhumas pretende recriar neste domingo, dia 17, logo após a tradicional cavalgada, com a realização da Queima do Alho — uma celebração da culinária tropeira e das raízes sertanejas do interior paulista.
A iniciativa conta com a participação da Fazenda São Paulo, propriedade voltada ao turismo rural em Anhumas, representada por Wanessa Wieser Nogueira, que vê no evento uma forma de preservar a memória do campo.
“Vamos servir um almoço naquele estilo de comida sertaneja. Vai ter comida de fogo de chão pra mostrar um pouquinho da nossa cultura e da nossa tradição aqui na ExpoAgro”, destacou.
UMA RECEITA NASCIDA NA ESTRADA
A expressão “queimar o alho” surgiu décadas atrás, nas antigas comitivas de boiadeiros. Era o instante em que o alho caía na gordura quente e anunciava o preparo da refeição dos tropeiros depois de longas jornadas.
Mais do que cozinhar, era um ritual.
Homens cansados desmontavam dos cavalos, improvisavam fogões sobre a terra batida e preparavam pratos fortes, capazes de sustentar dias inteiros no lombo da viagem.
Na ExpoAgro, esse costume ganha nova vida diante do público urbano e das novas gerações. O cardápio mantém a essência da tradição tropeira: arroz carreteiro fumegante, feijão gordo carregado de carnes suínas, carne de lata conservada na banha, linguiça de varal e carne preparada no disco de arado.
Comidas simples. Intensamente simbólicas.
O FOGO DE CHÃO VIRA PATRIMÔNIO AFETIVO
Enquanto os tachos aquecem lentamente, a Queima do Alho transforma a culinária em narrativa afetiva. O crepitar da madeira, a fumaça subindo no início da manhã e o cheiro forte do bacon fritando criam uma atmosfera que mistura memória e pertencimento.
O feijão gordo, um dos pratos mais esperados, resume bem esse espírito. Preparado com torresmo, bacon, linguiça e carne-seca, ele nasceu da necessidade dos tropeiros de produzir refeições resistentes ao tempo e nutritivas para enfrentar dias exaustivos no campo.
A carne de lata também carrega história. Antes da chegada da refrigeração, a carne era frita na banha de porco e armazenada em latas, técnica que permitia a conservação durante longas viagens. Cada prato servido carrega um pedaço da cultura sertaneja.
DEPOIS DA CAVALGADA, O ENCONTRO
A expectativa é que o almoço reúna cavaleiros, famílias e visitantes logo após a cavalgada de domingo, transformando o parque da ExpoAgro em um grande encontro ao redor da comida de raiz.
Mais do que alimentar, a Queima do Alho pretende reconectar as pessoas com a identidade do interior.
Num tempo dominado pela velocidade e pelos alimentos industrializados, o fogo de chão reaparece quase como resistência silenciosa — lembrando que algumas tradições sobrevivem justamente porque carregam sabor, memória e história no mesmo prato.
E quando o alho começar a dourar na gordura quente, Anhumas não estará apenas servindo almoço. Estará servindo passado.
Fotos: Maurício Delfim


