Quem chega ao topo?

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 06/06/2026
Horário 05:00

Durante um episódio especial do Vozes de Prudente, a professora Dra. Samantha Lodi trouxe ao ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, uma questão que continua desafiando a sociedade brasileira: por que as mulheres ainda recebem menos e encontram mais dificuldades para alcançar posições de liderança no mercado de trabalho?
A pergunta partia de uma realidade conhecida, mas nem sempre compreendida em toda a sua dimensão. Segundo o mais recente Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego, as mulheres recebem, em média, 21,3% menos que os homens no setor privado brasileiro. O dado, por si só, já é preocupante. Mas a explicação para essa diferença talvez seja ainda mais reveladora.
Na resposta, o ministro chamou atenção para um aspecto frequentemente ignorado. A desigualdade não está apenas na comparação entre um homem e uma mulher ocupando a mesma função. Ela também aparece na distribuição das oportunidades ao longo da carreira.
As mulheres representam mais de 41% dos empregos formais no país. No entanto, quando observamos a massa total de rendimentos, sua participação cai para pouco mais de 35%. Isso significa que elas estão presentes no mercado de trabalho, mas continuam sub-representadas justamente nos cargos mais valorizados e melhor remunerados.
A pergunta, então, muda de forma.
Talvez não devêssemos perguntar apenas por que as mulheres ganham menos. Talvez devêssemos perguntar por que elas chegam menos ao topo.
Essa realidade torna-se ainda mais evidente quando observamos o recorte racial. Enquanto homens não negros recebem, em média, mais de R$ 6.500 por mês, mulheres negras recebem pouco mais de R$ 3.000. Não se trata apenas de uma desigualdade de gênero. Trata-se do encontro entre racismo e misoginia produzindo barreiras adicionais para milhões de brasileiras.
Mas talvez o ponto mais interessante da conversa tenha surgido quando o debate saiu das estatísticas e entrou no campo da educação.
Luiz Marinho observou que muitas dessas desigualdades são construídas muito antes da entrada no mercado de trabalho. Em inúmeras famílias, meninas ainda são incentivadas a cuidar, organizar e assumir responsabilidades domésticas desde cedo, enquanto meninos recebem estímulos diferentes. São pequenas práticas cotidianas que parecem naturais, mas ajudam a moldar expectativas sobre quem deve liderar e quem deve apenas executar.
A desigualdade encontrada no topo da pirâmide profissional não nasce no topo. Ela começa na infância. Começa nos exemplos que oferecemos, nas oportunidades que distribuímos, nos valores que ensinamos e até mesmo nos silêncios que mantemos diante dos preconceitos.
Foi nesse contexto que surgiu outra reflexão importante: o papel da escola. Em uma sociedade marcada pelo racismo, pela misoginia e pela violência de gênero, negar à escola a possibilidade de discutir respeito, igualdade e direitos humanos significa abrir mão de um dos principais instrumentos de transformação social que possuímos.
A escola não substitui a família. Mas ajuda a formar cidadãos capazes de questionar injustiças que muitas vezes são naturalizadas dentro da própria sociedade.
Se queremos mais mulheres nas diretorias, nas gerências, nos parlamentos, nas universidades e nos espaços de decisão, precisamos compreender que a mudança não começa apenas nas empresas. Ela começa muito antes.
Porque a desigualdade que aparece nos salários é apenas a parte visível de uma estrutura muito mais profunda. E que nós sociedade - principalmente homens - devemos enfrentar com seriedade. 
E enfrentar essa estrutura continua sendo uma das tarefas mais urgentes da democracia brasileira.

REFERÊNCIA SUGERIDA 
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios. Brasília: MTE, 2026.

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