Quem consegue, no meio da correria do dia, parar para planejar trajetos, conferir códigos, identificar linhas e ainda garantir que vai chegar no horário?
Quem já dominava o caminho que fazia todos os dias não deveria ter sido ajudado a atravessar essa mudança?
Quem pensou em quem pega ônibus todos os dias para trabalhar, estudar, cuidar da família?
Quem consegue acessar todas as informações que estão sendo divulgadas? E quem fica de fora quando tudo passa a depender de QR Code, aplicativo ou linguagem técnica?
Quem, de fato, foi ouvido antes dessas mudanças entrarem em prática?
Quem consegue participar de uma audiência pública marcada às três horas da tarde?
Quem pode sair do trabalho nesse horário, pegar condução, ir até a Câmara e ainda contribuir com o debate?
Quem depende do transporte público teve condições reais de opinar — ou apenas foi informado depois que tudo já estava decidido?
Quem sente, na prática, o impacto dessas mudanças?
Quem espera mais tempo, quem precisa fazer integração, quem se perde no trajeto, quem chega atrasado no trabalho?
Quem paga o preço quando o sistema não funciona como deveria?
Quem tem carro também sente o impacto no trânsito — mas quem depende do ônibus sente no tempo de vida.
Quem tem tempo hoje para lidar com tudo isso?
Quem vive sob jornadas intensas, muitas vezes na escala 6x1, consegue se adaptar facilmente a um sistema que exige mais planejamento e mais tempo?
Quem garante o direito à cidade quando o acesso a ela se torna mais difícil?
Quem está sendo deixado de lado nesse processo?
E, diante disso, quem começa a se organizar para ser ouvido?
Quando surgem mobilizações, questionamentos e protestos, não é justamente porque algo deixou de funcionar para quem mais precisa?
Se o transporte público é um direito, ele está funcionando para todos — ou apenas para quem consegue se adaptar ao sistema?
E, no fim das contas, que cidade estamos construindo?
Uma cidade pensada a partir da vida real das pessoas… ou uma cidade que funciona melhor no papel do que no cotidiano?