Quem é você na Quaresma?

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 17/02/2026
Horário 04:30

Talvez você seja alguém, como eu já fui, que durante a Quaresma vai fazer a penitência de não comer frutos do mar, sendo que nem seu paladar e nem o bolso são aptos para estas iguarias. Ou seja, a penitência servirá apenas para criar uma imagem boa no grupo da família e junto aos amigos do trabalho.

Talvez você seja daqueles, como eu já fui, que irá acordar às quatro da manhã e não verá a hora do religioso dizer que é preciso compartilhar com todos na rede que aquele “sacrifício” está em andamento, porque daí você ganha um salvo conduto para expor nas redes como é um cristão exemplar. 

Talvez você aproveite para fazer aquele jejum intermitente, como eu já fiz também, em que ficará horas e horas sem comer ou beber e no fundo, a ideia é só essa: fazer uma dieta aproveitando a deixa das penitências. Sim, será dieta porque sem oração e conversão, jejum é uma forma de emagrecer. Ah, e vai colocar nos stories também para não ficar fora do hype. 

Agora, pode ser que a Quaresma seja para você o que eu entendo hoje: uma jornada importante de reclusão e retiro pessoais, em que o mais importante não sejam as modinhas e nem as oportunidades midiáticas. 

No isolamento honesto do deserto da Quaresma, você não precisa se perguntar se está bem vestido ou se vão reparar no que fala ou faz. Você não terá que fingir sanidade em meio à confusão digital da vida, não terá que concordar com alguém no trabalho só para não criar atritos e nem mesmo aceitar de novo as mentiras que conta diariamente a si mesmo só para se sentir melhor. 

O deserto da Quaresma é democrático. Não pergunta sua raça, religião, sua preferência política e nem quanto tem na conta do banco. Ele só te convida a viver a contradição de sua condição de terra seca. Porque em tese, o deserto é a imensidão que flerta com a morte e o sofrimento, mas que no fundo, passar por ele significa escanear o passado e definir uma vida nova, rica e mais justa com o que somos. Viver o deserto é ter a chance de mudar de pensamento, de se converter, enfim, em alguém melhor.

Portanto, se você me encontrar por aí na Quaresma, saiba que vou cumprir todos os meus deveres diários, mas estarei longe, muito longe. É hora de estudar mais, refletir e organizar o que posso. É hora de aproveitar o atalho e a permissão social que o tempo quaresmal me dá para exercer o silêncio e poder ouvir, no meu caso mais específico, a única voz que importa: a Dele.

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