Se há dúvida, não é de Deus

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 14/04/2026
Horário 06:00

Não tem muito tempo, fui colocado numa condição difícil no trabalho. Precisava decidir entre aceitar a proposta de um arranjo administrativo interno ou recusar. Prós: possibilidade de realizar mudanças importantes no ambiente de trabalho e ter um bom reconhecimento profissional. Contras: um trabalho muito intenso e que poderia não ser bem conduzido porque dependeria da anuência de pessoas que não necessariamente comungariam da mesma filosofia de trabalho.

Em resumo: era bom, mas não era bom.

E eu fiz o que muita gente faria. Fui para os livros e aprendizados. Perguntei para vários amigos do trabalho. Nada resolvido. Uns a favor, outros contra. Inclusive fiz o que hoje todo mundo faz: perguntei para a Inteligência Artificial. Recebi dela uma aula de relacionamento no trabalho, mas não a resposta.

Pois bem. Fui para casa. Abri a porta, joguei o problema para a minha esposa. Ela olhou, nem pestanejou, e falou assim de cara: "Se algo te deixa na dúvida, não é de Deus."

Falou e saiu.

Eu fiquei ali com cara de pastel. Aliviado. Porque a resposta estava dada.

Eu não sei você, mas vez em quando me pego em situações que me fazem parar e perguntar: "Peraí... por que estou criando tanta confusão com uma situação para resolver, quando a resposta está mais fácil do que parece?" E aí percebo uma coisa simples: a gente precisa ouvir mais quem está ao nosso lado.

Sim, aqueles que dormem no mesmo teto, que dividem a geladeira, que sabem do nosso mau humor antes mesmo de a gente falar "bom dia".

Hoje em dia, a gente faz um esforço danado para buscar sabedoria longe. Gastamos rios de dinheiro com consultorias, cursos milagrosos, gurus de internet e até com a própria Inteligência Artificial, como se um algoritmo fosse a salvação de tudo. E ignoramos que, ali na cozinha às vezes, tem uma mãe que já viu de tudo, um pai que já quebrou a cara e conseguiu se recuperar, um irmão que é chato, mas que no fundo é seu verdadeiro amigo, ou a esposa, como foi o meu caso, que sempre (quase, vai) está certa.

Eu sempre tive a certeza de que aquela passagem do profeta que não é reconhecido em sua própria terra, não foi dita para desprezar quem é próximo. Foi o contrário: abrir os olhos para enxergar que o extraordinário mora muitas vezes no ordinário.

Eu sei que recorrer a alguém que nos conhece de verdade pode ser difícil. Dá vergonha. A gente teme ser julgado. Mas para que usar máscaras com quem já nos viu de tudo que é forma?

Então, se você anda complicando o simples, tentando decifrar a vida com manuais escritos por estranhos, talvez seja hora de desligar as telas, atravessar o corredor, e perguntar pra quem dorme ao seu lado.

Às vezes, a pessoa mais sábia do mundo está ali, tomando café em sua própria cozinha.
 

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