Silêncio e Estranheza

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 02/06/2026
Horário 06:00

Dois vizinhos viviam em harmonia. Plantavam juntos uma horta que separava seus terrenos, regavam as mudas, trocavam sementes e risadas. Certa manhã, porém, um deles, que vou chamá-lo de Silêncio, simplesmente parou de olhar para o outro, que tinha o nome de Estranheza.
Estranheza continuou a regar a horta, mas Silêncio desviava o rosto quando se cruzavam. Estranheza perguntou, primeiro em tom de brincadeira: “Perdeu a voz, amigo?” Silêncio nada respondeu. Depois perguntou sério: “Ofendi você?” Silêncio virou as costas. Por fim, pediu: “Se eu errei, diga o que foi. Corrigirei.” Silêncio entrou em casa e fechou a porta.
Dias se passaram. A cerca entre os terrenos continuava intacta, mas uma muralha invisível de angústia cresceu. Estranheza revirava a própria memória como quem procura uma agulha no escuro: “Terá sido aquele comentário sobre a enxada?” “A sombra que fiz sobre sua roseira?”
Certo entardecer, o velho sábio da aldeia passou e encontrou Estranheza sentado à porta, com o rosto entre as mãos.
— Por que chora? — perguntou o sábio.
— Não sei o que fiz — respondeu Estranheza. — Meu vizinho me condenou sem me dizer o crime. Prefiro uma pedrada a este vácuo. Ao menos a pedrada eu veria de onde veio.
O sábio foi até a casa de Silêncio. Bateu leve.
— Seu silêncio está matando a horta dos dois. O que ele fez?
Silêncio respondeu, rancoroso: “Ele sabe o que fez. No dia 14, às três da tarde, pisou numa muda que eu havia plantado. Nem reparou. Isso prova que ele nunca se importou de verdade comigo.”
O sábio suspirou.
— E você lhe disse isso?
— Não preciso. Quem se importa percebe sozinho.
O sábio então pegou uma garrafa de vidro, entregou a Silêncio e disse:
— Aqui. Vá e atire esta garrafa contra o muro. Estraçalhe-a. Depois, recolha todos os cacos e cole-os de volta com suas mãos.
— Impossível — disse Silêncio. — Cacos não viram garrafa inteira outra vez. Não do jeito que está agora.
— Exato. Você, por orgulho, não quer reparar o dano. Prefere que o outro adivinhe sua dor. Mas o que não se comunica não se resolve, vira ferida aberta, e depois cicatriz torta, e depois muro.
O sábio voltou a Estranheza e repetiu a frase que ficou guardada como a moral da história:
— Quem impõe o silêncio como prova de amor não ama: só testa. Quem exige adivinhação como forma de reparo não quer paz: quer tribunal invisível. A explicação que se recusa a dar é o segundo ferimento, pior que o primeiro, porque é de propósito.
Se você errou, digam-lhe. Se doeu, explique. Mas não deixe o outro pastorando sombras para sempre. Silêncio sem causa não é justiça, é tortura lenta. E até as parábolas mais belas perdem o sentido quando o narrador se recusa a falar.

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