O cheiro de sangue e gordura ainda impregnava as mãos de Márcio Rogério Oliveira dos Santos quando ele ouviu o telefone gritar no bolso do avental. Eram 14h30 de uma terça-feira comum no açougue de Pirapozinho. Nada naquele dia sugeria que a vida do açougueiro de 39 anos, solteiro e pai de uma filha, mudaria em poucos segundos.
Do outro lado da linha, a voz do atendente do CiaCap repetia os números. Márcio não ouvia mais nada. O roçar da faca na chaira, o burburinho dos clientes, tudo silenciou. Apenas oito números. Oitocentos mil reais.
“Achei que fosse trote. Pedi para repetir três vezes”, contou ele mais tarde, ainda sem acreditar completamente.
UMA PROMESSA DE MUITOS CARNAVAIS
Na mesa de casa, com o comprovante do sorteio especial do Dia das Mães aberto à frente, Márcio chorou pela primeira vez em anos. Não pela sorte — pela lembrança.
A mãe dele, dona de casa a vida inteira, sempre varreu o mesmo cimento. Sempre dormiu no mesmo quarto. Sempre sonhou com uma casa com quintal e flor na janela. O filho, que corta costela e alcatra desde os 18 anos, nunca pôde dar mais do que um abraço no Dia das Mães. Até agora. “A primeira coisa que vou fazer é comprar uma casa para minha mãe. Ela merece muito”, disse. A voz falhou no final. Os olhos marejaram. Ali estava o clímax de uma história que não começou no sorteio, mas em cada janta silenciosa onde a mãe comia menos para que ele comesse melhor.
RIQUEZA SEM PRESSA, SIMPLICIDADE SEM VERGONHA
Dos R$ 800 mil, a casa vem primeiro. Depois, Márcio garante que não tem pressa. Disse que vai pensar com calma no restante — aplicar, guardar ou realizar outros pequenos sonhos prometidos à filha.
O que não mudará, jura, é a rotina. O açougue continua. O avental sujo de terça-feira continuará sujo. “Dinheiro muda conforto, não muda quem a gente é”, filosofou.
E, como prova de fidelidade ou superstição, comprou o bilhete para o próximo sorteio do CiaCap antes mesmo de depositar o prêmio na conta.
DESFECHO COM IMPACTO FUTURO
Pirapozinho, cidade de pouco mais de 7 mil habitantes, já tem novo assunto nas rodas de boteco. Mas Márcio Rogério, o açougueiro milionário de avental sujo, não pretende dar entrevistas à imprensa nacional. Só quer uma coisa: entregar a chave da casa nova para a mãe no próximo Dia das Mães.
E, nessa tarde, o cheiro do açougue será trocado pelo cheiro de tinta fresca.
RAPIDINHAS
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Ponto final: Qual gentileza você tem feito? Muitos dirão que nada fazem e nada farão... Seja gentil assim mesmo. #gentilezageragentileza